01.07.10

Posted in Deep Inside at 3:03 por Bohone

Jogo de vem e vai 

Nick veio recebê-lo à porta como sempre fazia, com a mesma festa. Um chamado veio da cozinha. 

_Filho, entra logo que você tem visita! Uma visita muito especial na verdade.

O frio na barriga havia voltado, e Lucas sentia asas nos pés. Correu atravessando a sala, largou a mochila no sofá e quase se jogou ao chegar na cozinha. Quando viu aqueles olhos, teve tempo apenas para sorrir e abrir os braços para ela que se atirou também contra ele. Lídia achou a cena bonita. Seu filho podia ser um pouco instável, inconsequente. Mas era sensível e carregava sentimentos sinceros no coração. 

_Ela não quis comer nada, ficou esperando até você chegar, disse que queria almoçar com você. – disse a mãe sorrindo. 

_Eu senti tanta saudade! – foram as primeiras palavras dela de muitas ainda a serem ditas e explicadas naquela tarde.

Paolla ainda estava agarrada ao amigo que tanto gostava. O confidente de quem, por culpa das circunstâncias, havia se afastado uns bons quilômetros por meses. Seu perfume era o mesmo aroma de água fresca, sua voz era ainda um contralto. Lucas soltou-a, queria olhar para ela. 

_Parece que faz um ano que eu não te vejo! 

_É, mas na verdade faz um ano que a gente se conhece. – Ela disse com os olhos radiantes. 

_Poxa, que saudades! Você está diferente, seu cabelo cresceu. É uma mulher linda! 

Paolla corou de vergonha. De repente, um barulhinho. 

_Caramba, você deve estar com fome, né? Esperou até agora. Mãe, o que tem aí? – Lucas perguntou olhando por cima das panelas.

_Ravióli de espinafre com molho branco – dona Lídia se orgulhava do prato que sabia fazer melhor. – vou pôr a mesa, me ajude filho, leve aqueles pratos e as taças, tá bem? Gosta de vinho querida? 

Lucas foi atrás da mãe que carregava um refratário de porcelana, o cheiro encheu a casa toda. A mesa estava posta para três pessoas apenas. 

_Mãe, cadê todo mundo? 

_Seu pai só volta à noite, a Re está na casa de uma amiguinha e a Mari foi fazer um curso de… Sei lá o nome daquela coisa! Pilares eu acho. 

_Pilates, mãe. 

_É, isso. Ela também só volta à noite, disse que ia dar uma volta depois. Então, a Paolla ligou aqui perguntando a que horas podia vir. Como eu estava sozinha, pedi que viesse a qualquer hora, e que ia ser bom ter companhia até você chegar. Ela chegou às 11. Conversamos muito, né?

_Sua mãe foi um amor de me deixar vir mais cedo. Eu não suportava mais o clima lá de casa. 

_O que foi, Pah? 

Ela suspirou, seu rosto parecia mais pesaroso e preocupado como o rosto de alguém ao se lembrar de um sonho ruim. 

_Acho que eu posso resumir dizendo que a minha mãe pediu o divórcio, voltamos pra cá, e agora ela está deprimida. Não consegue trabalhar, você sabe, ela é arquiteta, sempre trabalhou em casa. Ela chora muito, grita comigo o dia inteiro. Eu não sei, acho que ela vai ficar louca, a situação está a cada dia mais difícil. Eu queria ajudá-la, queria muito, mas não dá! 

Paolla pousou o garfo, respirou fundo tentando refrear uma lágrima que, inoportunamente, teimou em rolar. Sentia um nó na garganta, estava muito vermelha. Limpou os olhos com as costas da mão. 

_Ei, ei! Por favor, não fica assim! – Lucas já estava de joelhos ao lado da amiga, segurava suas mãos.

_Desculpa! É que está sendo difícil e… E eu…

Ela soluçava enquanto tirava do peito parte daquela tristeza tão dolorida para ela. Sentia-se sufocada. Ter o amigo ali tão próximo era uma válvula de escape.

_Não peça desculpas, tá bem? Você está entre pessoas que gostam de você! Minha mãe te adora, minhas irmãs vão fazer festa quando souberem que você voltou, eu estou tão feliz, tão feliz em te ver! E quero ver você feliz também, Pah. Confia em mim, sua mãe vai ficar bem, é uma fase. Deixa ela gritar sozinha, chorar, é o momento dela. Logo isso passa. Eu entendo que você esteja triste, então não precisa pedir desculpas por chorar. Somos amigos, né?

_Uhum… Obrigada. Eu acho que… Que eu deveria voltar a comer né? Seu ravióli é maravilhoso, Lídia!

_Obrigada querida! Come sim, ou vai esfriar. – dona Lídia deu-lhe um sorriso de mãe e Paolla sentiu-se mais aliviada. 

_Ah, tenho uma notícia boa – Lucas acreditava que mudar de assunto naquela hora era a melhor coisa a fazer – Eu vou fazer teatro na escola. 

_Que bom filho, vai ser ótimo pra você. Mas de onde veio esse ideia? 

_Do professor. Ele pediu pra eu ler um poema do Shakespeare, eu li, ele gostou, então me chamou pra fazer teatro. Mas eu tenho que fazer um teste pra entrar, e eu não faço ideia de como vai ser. Eu fico ansioso, melhor falar de outra coisa. 

_Outra coisa, certo. E suas provas, filho?

_Mãe, outra coisa que não tenha a ver com escola, eu quis dizer. 

E assim foi até o final do almoço. Paolla arriscou sorrir e até riu. Sentiu-se mais leve, mais aliviada. Parou por um momento de pensar nos maus motivos que a trouxeram de volta para São Paulo. Mas se os motivos de sua volta não eram bons, os motivos para ficar não podiam ser melhores: tinha de volta sua casa, sua escola, seus amigos, principalmente Lucas. Como havia sentido a falta dele. 

_Bom, eu tenho umas coisas pra fazer lá em cima. Vocês lavam a louça pra mim? Paolla, pode ficar o quanto quiser, está em casa! 

Lídia subiu as escadas. Lucas e a amiga foram para a cozinha e lavar a louça nunca fora tão divertido! 

_Dois a zero pra mim! – Paolla disse ao jogar água pela segunda vez no amigo. 

_Ei, a brincadeira era jogar água em quem ficasse distraído primeiro, não era encharcar o Lu! 

_Ah, desculpa, eu não resisti. Você sabe como eu sou competitiva. 

_Eu deixo você ganhar porque você é menina! 

_Ah é? 

_É! 

_Desde quando? 

_Desde que você nasceu acho que você é menina, né? 

_Não, não, desde quando você me deixa ganhar? Não precisa ficar com dó, eu sei me defender! 

_Sério? Então segura essa! 

Lucas jogou uma xícara cheia d’água na amiga, e então, começou uma guerra. Era água e sabão pra todo lado além das risadas e da sensação de sonho, afinal, fazia tempo que não se viam e momentos assim pareceriam surreais um passado não muito longínquo. No fim, teriam que limpar toda a cozinha outra vez. O chão estava deslizando e num passo mal dado, Paolla caiu puxando Lucas para baixo quando tentou segurar-se em suas roupas. Era impossível não rir, aliás, era gostoso gargalhar com ela, Lucas pensava, como costumavam fazer. 

_Melhor limpar essa bagunça antes que sua mãe me expulse da sua casa – Paolla mal falava depois de tanto rir. – Ai, esse tombo doeu! Bati o quadril, a perna. Hmm, vai ficar roxo. 

_Coitadinha! Vem, me dá a mão, eu ajudo você a levantar. 

_Obrigada! 

Lucas não queria mais soltá-la mesmo quando ela já estava de pé. Foi quando se lembrou de um beijo havia muito tempo e depois de um sonho, outro beijo. Ele queria um beijo agora, fazia tanto tempo, tanto! Olharam-se por alguns segundos até que Paolla ficou vermelha outra vez e baixou a cabeça para o chão.

Em uma hora a cozinha estava limpa e o chão parecia um espelho por causa de toda a água com sabão. 

_Vem, a gente precisa conversar. 

Lucas puxou a amiga pela mão e subiu as escadas. Em seu quarto havia o mesmo cheiro de perfume e o globo de espelhos que Paolla se lembrava. 

_E então, me conta. O que houve depois que eu fui embora? 

Lucas disse tudo. Contou o que havia acontecido com Carol, com Fabiana, contou sobre suas noites mal dormidas. Contou que andava triste mas não queria dizer a ninguém, preferia se esconder atrás de um sorriso. Para ela, porém, não era difícil desabafar certas coisas. 

_Jura que ela terminou desse jeito com você? 

_Juro. Eu me senti a pior criatura do submundo, sabe? Ela só acabou comigo, só isso. 

_Deve ter sido horrível mesmo. Eu fiquei tão irritada esses dias porque eu estava sem internet, telefone, sem TV. Minha casa estava uma bagunça, minha mãe, bom, você já sabe. Queria muito estar com você logo que cheguei. 

Paolla sentou-se alguns centímetros mais próxima a ele. Deram-se as mãos sem querer. Como a pele dele era quente, Paolla não podia entender. Parecia até febril tanto que ela seria capaz de jurar que o amigo não precisava de roupas pro frio, na verdade ele próprio era um bom agasalho. 

_Lu, você se lembra quando a gente estava na escola, e que quando fazia frio eu escondia minha blusa na mochila só pra você me abraçar? 

_Claro que eu lembro. Quando você não escondia, eu perguntava se você queria um abraço. Você sempre dizia que sim, mas você nunca respondia verbalmente. Você tirava o casaco e grudava em mim. Senti falta disso, muita falta. Do seu abraço, do seu perfume, mas principalmente do seu sorriso. 

_Meu sorriso? Mas por quê? 

_Porque é como uma estrela. Uma estrela não, é uma constelação. Uma das mais bonitas no céu do meu infinito particular. Você pode até achar que é mentira, achar que eu falei por falar, mas desde que eu fiquei sabendo que você tinha voltado eu não parava de pensar em você. Todo dia, toda hora, era você na minha cabeça. Era como se a vida estivesse me devolvendo aquilo que ela havia tirado de mim, entende? 

_Mas, mesmo depois que você soube que eu estava aqui, você continuou chorando por causa da Carolina, e você ficou com a Fabiana em uma festa. 

_Mas Pah – Lucas tentou se explicar, Paolla parecia fechada – com você as coisas sempre foram diferentes, sempre fomos amigos. 

_Tem certeza? 

_Tenho. – Lucas sabia que era uma mentira, mas, não sabia por que, não queria que ela pensasse diferente. 

Paolla estava de cabeça vazia. Mordia o lábio inferior e olhava para ele sem nenhuma expressão, somente olhava. Foi involuntário quando finalmente tomou uma atitude. 

_Bom, então acho que eu deveria tirar essa certeza de você. 

No tempo de um relâmpago, Paolla simplesmente e nada devagar, beijou-o. Beijou-o com paixão, com ciúmes, com o desejo de uma menina, quase uma mulher. Beijou-o louca, de modo inesperado. O beijo sim, ele esperava, mas não daquele jeito. Ela estava tão entregue, tão apaixonada tão… É claro que ele respondeu apesar de confuso. Deixou-se levar, deixou que ela tivesse o controle, não negou em momento algum. 

Era como aquele beijo na Ilha da Estrela, como o sonho. Tinha o mesmo sabor mas era mais violento; Qualquer faísca poderia causar um incêndio dantesco. E ela não parava, do contrário, ela colocava mais gasolina no fogo. Estava com os braços enlaçados em seu pescoço e por muito pouco não haviam caído da cama. 

Ele não deixou por menos e agarrou-a também, puxou-a pra perto. Nunca parecia perto o suficiente. Estava sem fôlego e sua pele estava uns cinco graus mais quente. Fogo, fogo Paolla tinha fogo demais! Quanto tempo ela estaria esperando por aquele beijo? 

_Sua louca, você tem ideia do que você está fazendo? 

_Eu só estou fazendo o que eu queria há muito tempo. – e então, olhou para ele – Faz meses desde o último beijo não faz? 

_Impossível que isso seja só saudades Paolla! 

Sentaram-se então quando o beijo acabou, tão brusco quanto havia começado. Ela deu um riso nervoso, suspirou e finalmente abriu-se. 

_Desculpa por isso, por ir assim, tão impulsivamente. Mas é que… Que droga, a culpa é sua! Você fez com que eu me apaixonasse. Nunca senti ciúmes de alguém antes, mas por você é impossível. Mesmo quando você me conta daquilo que já passou, tenho ciúmes mesmo assim. 

“Eu já sabia mais ou menos como a minha mãe iria ficar longe do meu pai. Ela é muito fraca, essa não é a primeira vez, das outras foi pior. Ela passava semanas longe de casa quando brigava com ela, e ela repetia o mesmo ataque. Teria sido melhor pra mim, mais fácil se eu tivesse ficado com meu pai, se eu esquecesse de vez essa cidade. Mas então eu lembrei de tudo aquilo que eu tinha aqui. Aqui eu tenho minha casa de verdade, meus amigos, aqui eu tenho você.

“Eu sabia da sua namorada então esse tempo todo eu tentei me afastar de você, não só pelos quilômetros. Eu pouco ligava, quase não mandei e-mails, mensagens. Não tentei te esquecer, mas quis que você fosse feliz com ela. Por mais que eu quisesse estar ao seu lado, por mais q eu sonhasse com momentos como este. Por mais que eu achasse que o lugar que ela estava ocupando era meu. 

“Eu podia ver nitidamente a imagem do seu quarto, você sentado na cama, tocando violão. Eu podia ver seu cachorro dormindo no meu colo. Eu sonhava com você todas as vezes que ia dormir chorando com um travesseiro tapando os ouvidos pra não ouvir as brigas dos meus pais. Sonhava com seus abraços, com um beijo seu, com seus olhos brilhantes.”

Paolla estava sendo sincera. Estava envolta nos braços dele, sua cabeça pousada nos ombros largos que ele tinha; 

_Paolla, por favor entende uma coisa – ele disse sem olhar nos olhos dela, com o nariz afundado no cheiro de seus cabelos – eu não quero ver você triste por minha causa, olha aonde você tá se metendo! Até a minha mãe sabe que eu sou um cachorro e não passo disso. 

_Bobagem, quem liga? Eu não quero saber o que pode acontecer, eu quero aproveitar o que está acontecendo. Você também pode escolher entre ficar aí me olhando ou me beijar. 

Não precisava nem pedir. Com um sorriso veio um beijo mais lento, mais amável. Parte da tarde se foi naquela cama, entre muitos beijos, risadas, histórias engraçadas e outras nem tanto. O globo de espelhos refletia a luz azulada de sempre mas parecia mais bonita. Lá fora começava a esfriar. 

_Tá com fome? Brigadeiro e chocolate quente? 

_Brigadeiro de panela? 

_Claro que sim! Quer? 

_Lógico! Mas eu faço o chocolate quente. 

Ainda sorrindo um para o outro foram para a cozinha. Desceram as escadas conversando e na sala havia uma cena bem familiar: Lídia estava com a cabeça apoiada no ombro do marido enquanto assistiam o jornal juntos. Passava das seis da tarde. 

_Seu Marcelo, quanto tempo! 

_Paolla, como você está minha filha? Faz tempo mesmo. Você voltou pra São Paulo, né? Fico feliz! Feliz em ver você e também em saber que agora meu filho tem algum motivo pra parar em casa. – Marcelo riu ao ver a cara contrariada do filho, ele estava tão acostumado à Paolla como uma visita constante, gostava dela. – seja bem vinda de volta querida! 

_Tem achocolatado aí? 

_Tem coisa melhor, chocolate suíço em pó. Menos açúcar, mais cacau, muuuito melhor. Ah, tem chantilly na geladeira pro seu chocolate quente. 

Logo havia uma bandeja com quatro taças de chocolate quente e uma tigela enorme de brigadeiro. Agora mais do que nunca Paolla se sentia em casa. Havia muito tempo que não se sentava com pessoas queridas pra conversar e comer bobagens. Sempre que sua mãe pedia pizza o jantar virava um inferno. Comer juntos à mesa ou na sala era sempre insuportável por conta das brigas intermináveis. 

_Lu, eu preciso ir pra casa. 

_Quer carona querida? – perguntou Marcelo – Vou buscar a Re, posso deixar você em casa. 

_Aceito sim, obrigada. Vou buscar as minhas coisas lá em cima. 

Lucas foi ao seu calcanhar subindo as escadas. Achava cedo demais pra que ela fosse embora. 

_Pah, você vai ficar bem? 

_Vou sim, pode acreditar! – ela sorriu – Eu volto quando você me chamar ou sei lá, a gente pode se ver, como nos velhos tempos né? 

_É, como nos velhos tempos. Vai ficar tudo bem, eu juro que vai. 

Um longo abraço e um beijo de despedida. Logo ela estava no carro indo pra casa. Lucas ficava em seu lugar, feliz, mas com o coração bem apertado. Agora, a cada vez que ela fosse embora, seu coração doeria e diria “ela não volta mais”. Grande engano. O destino havia cruzado seus caminhos mais de uma vez, e agora, parecia que o tal caminho seguia por uma rota muito mais longa, para um lugar distante, por muito mais tempo do que da última vez.

01.06.10

Posted in Deep Inside at 20:06 por Bohone

 Surpresa!

 _Bom dia pessoal! – o professor Enzo disse ao entrar na sala. Não tinha cara de professor, parecia um aluno crescido demais porque já tinha barba, mas muito pouca idade. Usava os cabelos compridos amarrados num rabo de cavalo baixo, era do tipo magrão e usava um macacão engraçado. – Moçada, nas próximas semanas, o tema das aulas de artes é teatro, desde o clássico até o contemporâneo. Mas vocês sabem que eu não gosto muito de ordem, então hoje a gente pode começar com Shakespeare, século XVII, era moderna. 

Lucas gostava das aulas do professor Enzo, gostava de estudar artes, mas não estava em seus melhores dias. 

_Ei! – alguém o cutucou nas costas. – Acorda, você vai perder a aula mais legal de hoje. 

Lucas deu um muxoxo. Não sentia a menor vontade de levantar a cabeça, ainda pensava em seu sonho louco na noite passada. Além do que, agora mais do que nunca, sentia falta de Paolla. 

_Sério, Louise, hoje não dá. 

_Por quê? 

_Depois eu explico. – e enfiou a cabeça novamente entre os braços, puxando a toca mais para cima. Ele realmente achava que o homem bem humorado do signo de aquário que usava barba não iria se importar. Ledo engano. 

_Alguém se candidata a interpretar a poesia? – Enzo perguntou após uma breve explicação sobre a vida do escritor inglês mais famoso de todos os tempos. – Ah, o aluno novo, Lucas né? 

Lucas queria realmente sentir ódio de tudo: de ter levantado cedo, daquela aula sobre um dramaturgo que nem era brasileiro, de Louise por tê-lo acordado, do dia de sol que fazia do lado de fora do prédio da escola, e de usar aquela touca pra esconder o rosto. Mas tomou coragem, levantou a cabeça, encarou o professor que lhe deu uma folha de papel com um sorriso muito pretensioso e até meio cínico. 

_Soneto número…

_Eh… Não se importa em ler de pé, para o restante da classe, se importa? 

O olhar que lançou ao professor queria dizer tudo menos “não, com certeza não me importaria!”. Era um olhar de quase raiva para alguém que sentia vontade de rir, afinal, Enzo era também um adolescente brincalhão e agora queria rir da cara dele. Lucas não deixou por menos e fez algo que nunca havia tentado.

Deu uma lida breve no poema para saber do que se tratava, então, teve uma ideia no mínimo louca: levantou-se, puxou Louise de frente para si segurando-lhe a mão olhando a nos olhos, e brilhou ante a pequena multidão de quase quarenta pessoas. 

_Soneto número oitenta e oito 

“Quando me tratas mau e, desprezado,

Sinto que meu valor vês com desdém,

Lutando contra mim, fico a teu lado

E, inda perjuro, provo que és um bem.

Conhecendo melhor meus próprios erros,

A te apoiar te ponho a par da história

De ocultas fadas, onde estou enfermo;

Então, ao me perder, tens toda a glória.

Mas lucro também tiro deste ofício:

Curvando sobre ti amor tamanho,

Mal que me faço me traz beneficio,

Pois o que ganhas duas vezes ganho.

Assim é o meu amor e a ti o reporto:

Por ti todas as culpas eu suporto.” 

A garota estava muito vermelha e espantada. Pensou que o amigo estivesse realmente delirando. Mas não era Louise quem Lucas via naqueles olhos refletindo a luz e o susto. Era Carolina e seu amor vassalo por ela. Afinal, o quanto não tinha perdido ao se anular pela garota que um dia havia amado tanto? Era Carol quem ele via no lugar de Louise com a poesia delicada que caracterizava um amor mais do que dadivoso. Anulação, este deveria ser o titulo do soneto. Ou burrice, pois ninguém é tão masoquista. Na verdade ele fora. 

Não queria mais Carolina, não queria mais vê-la nem pensar nela. Aliás, fazia quanto tempo que estava parado ali segurando a mão de Louise? Alguns segundos apenas, mas o suficiente para o diretor ficar de queixo caído na porta, Louise roxa, roxa de vergonha e Enzo com olhos brilhantes. 

_Mas o que foi isso? – Perguntou o diretor Nelson. Ninguém na classe conseguia dizer nada. 

_Bom, – o professor pigarreou – acho que foi a revelação de um excelente ator. E uma coadjuvante assustada. Você quer água, Louise? – disse Enzo. 

_Anh? – Perguntaram Lucas e Louise ao mesmo tempo para o professor. 

_Hmm, Catarine? Você pode fazer o favor de levar a Louise para tomar um ar lá fora? A menina passou de vermelha, pra roxa depois branca em dez segundos, talvez menos. Agora você Lucas, bom eu sempre soube que você era capaz de fazer algo assim! Porque não entra para as aulas de teatro? Nós vamos representar a escola no final do ano em um congresso de educação importante e… 

_Espera, espera! – Lucas estava atordoado – Por que você não vai com calma? Aulas de teatro, congresso de educação. Uma coisa por vez. 

_Veja com seus próprios olhos, certo? Quarta-feira às oito da noite no anfiteatro. Acho que você vai gostar, parece que leva muito jeito. 

Em vez de dizer que iria pensar ou inventar desculpas tolas, pela primeira vez naquele dia, Lucas sabia que a resposta deveria ser sim. A sorte bate à porta quando menos se espera, por que não aceitar? 

_Eu vou sim! – disse sorrindo. 

_Ótimo! – Enzo também sorria. – Agora, vamos lá turma, Romeu e Julieta. 

Louise acabara de voltar, parecia ter recuperado as cores normais e não estava mais assustada. Tinha sim um olhar um pouco cauteloso demais. 

_Louise desculpe por aquilo, ok? Eu ainda não sei o que me deu, mas acho que ajudou a melhorar meu dia. 

_Está bem, você está desculpado. Mas da próxima vez vê se me avisa! 

Ele apenas sorriu. Sentia-se confiante, com menos sono e mais tranquilo. O celular vibrou, deu um estalinho, e lá estava a chave para um dia perfeito. 

Lu! Desculpe a demora em dar sinal de vida. Vou pra sua casa hoje, me espera. A sua mãe já deixou! Beijo, P. Vilanni. 

De repente Lucas queria pular de alegria. Sentiu-se eufórico, com frio na barriga, e dali até o fim da aula não tirou o sorriso dos lábios. Começou a pensar em como ela estaria. Vestida de que jeito, com que cor de cabelo, com que brilho no olhar. Será que ainda tinha o mesmo perfume? Eram tantas perguntas que seriam respondidas em apensa um segundo. No segundo em que a visse. 

_E então, você vai vir às aulas de teatro? – Louise perguntou durante o intervalo. – eles querem escrever uma peça nova. Pro congresso, sabe? Acho que com o talento que você tem pode fazer mais do que atuar. 

_O que quer dizer? 

_É óbvio, não acha? Pode ajudar a escrever essa peça. Mais que isso, pode ser até o protagonista, vai saber. 

_Espera Louise! Eu não sou tão bom assim. 

_Ah, sei. – a amiga riu desdenhosa. 

Por um momento Lucas pensou na ideia da peça de teatro. Seria no mínimo uma experiência diferente de tudo o que ele havia testado. Estava louco para contar tudo a Paolla. 

_Eu achei que você também fosse atriz, Louise. 

_Eu? Ah, não, eu prefiro os bastidores. Gosto da produção, minha função lá é ajudar o professor, fazer as fichas, os testes, o serviço burocrático. Se você for na quarta-feira, eu vou avaliar você. 

_Avaliar como? 

_Simples: vou me sentar ao lado do professor com uma prancheta e anotar os resultados do seu teste. É praxe, para entrar no grupo entende? Provavelmente você vai fazer um monólogo, então, o palco será todo seu. Seu e de algum objeto qualquer. Pode ser uma folha de jornal, uma cadeira, um lápis, um vaso. Qualquer coisa normal que você vai usar na sua atuação, então, seja criativo. Eu já vi cada coisa. 

Ninguém havia dito nada sobre um teste, ainda mais no palco. Lucas sentiu alguma coisa se mexer no estomago, e não era fome. Ansiedade era uma coisa que o matava. Louise o acalmou e distraiu durante o resto da manhã. Finalmente era hora de ir para casa e esperar por ela.

12.02.09

Posted in Deep Inside at 2:26 por Bohone

A Ilha da Estrela

http://www.youtube.com/watch?v=gl93sT7P6Xw 

_Cachorro fedido, se você fosse branco, Nick, agora estaria marrom. Cachorro sujo! 

Nick balançou as orelhas peludas encharcadas de água o que as fazia parecer murchas. Sacudiu-as molhando o dono fazendo-o rir, Nick era sempre engraçado e não gostava muito de água. Mas ficava quieto no banho. Parecia agora um floco gigante de espuma. 

O céu azul, o sol quente. Lembrava aquele dia com Fabiana. Droga, droga, tudo lembrava ela. Ou elas… Lucas ignorou o coração que protestava. Ligou o chuveiro e enxaguou o cachorro. Era difícil enxaguá-lo e segurá-lo ao mesmo tempo, Nick estava enjoado e não queria mais saber de água. 

Quando o banho terminou veio a parte da qual o cãozinho mais gostava: o secador e o pente. O secador pink de Marina tinha um efeito cômico naquela cena, e Lucas pensava que se o bichinho de estimação enxergasse cores, provavelmente pensaria que o objeto brilhante e cor-de-rosa, era uma ave estranha que gralhava esquisito, vinda de alguma ilha colorida. 

Lucas se via devaneando, estava alheio ao mundo. De repente viu a ilha colorida em sua mente, sentiu-a também em seu corpo e sua língua. Pássaros rosados e amarelos, um mar azul profundo que refletia uma estrela de ouro no céu tão azul quanto o mar. A estrela não era o sol, não era a lua. Era uma estrela dourada que pendia do céu como um pingente delicado sobre o colo de uma mulher bonita. As outras estrelas perdiam a graça. 

Na orla, o ouro iluminava três mulheres nuas. A de cabelos vermelhos deitada na areia mirando a estrela, a de olhos castanho claros, sentada de frente para o mar de tornozelos cruzados e a terceira, uma morena linda, acabava de sair do mar jogando os cabelos para trás. 

Um devaneio desses certamente poderia dar uma boa história. Mas Lucas sabia, se alguém um dia soubesse desta ilha, não poderia jamais vê-la com os olhos que ele havia visto, nem senti-la em seu vento quente, açucarado com sabor de chocolate e mel. As flores brotavam de todos os cantos e não faltavam luzes azuis de vaga-lumes que mais pareciam grandes bolhas no ar. Uma luz laranja vinha das fadas que gostavam de andar sobre as folhas, não passavam de pequenos pontinhos com asas, bracinhos e perninhas minúsculas e rosto delicado. 

Mesmo as cobras enroladas nas árvores eram bonitas com aqueles olhos encantadores, prateados, pareciam segui-lo a cada movimento, tinham cores das mais variadas. Frutas enormes, insetos do tamanho de suas mãos. Era uma ilha fantástica, intocável para qualquer outro que não fosse ele. Não era a Terra do Nunca, nem o País das Maravilhas. Era o mundo dele, seu portal exclusivo e de imediato acesso ao qual o mundo de verdade só teria passagem por meio de desenhos e alguns textos em seu diário mais tarde. 

_Ai! 

Nick estava protestando com mordidinhas e arranhões. Finalmente cansara-se do secador e começava a morder a mão do dono que o segurava. 

_Ta bem, ta bem, já chega! O pente. Venha aqui, seu cachorro esquisito! 

O pelo de Nick brilhava sob a luz do banheiro enquanto Lucas o penteava. 

_Lu você viu meu secador? – uma voz vinha apressada de longe. Marina estava com os cabelos molhados. – Ah, está com você! Nick, você tomou banho, menino! 

Nick era estabanado. Latiu e foi correndo para o colo de Marina, derrubando quase toda a água da bacia que Lucas usara como banheira. Molhou-se todo e encharcou o dono. Depois de tanto trabalho! 

No primeiro momento, ao ver a camiseta branca, impecavelmente limpa e passava, Lucas quis matar o cão e a irmã. Mas então viu uma pequena mancha vermelha próxima à gola, sobre o ombro, então riu quase histérico. Marina juntou-se a ele ainda surpresa, esperava outra reação do irmão, tão chato com suas roupas, principalmente as mais claras. 

Nesse momento, desistiu de sofrer por ela. Aquela mancha trazia lembrança de tempos melhores, de chuvas menos tormentosas. Era melhor o tempo passar e trazer novos ares. Ele riu, riu até fazer doer os músculos, sentado no chão. Nick o lambia festeiro. 

Lucas aproveitou para tomar o próprio banho. Ainda pensava na ilha sem fazer sequer ideia de onde viera, como fora feita, quem a tinha desenhando em sua mente. Parecia que alguém tinha tocado sua tela mental mostrando-lhe a ilha de sonho. Não era o tipo da coisa que seu cérebro teria inventado com facilidade, então quem a teria criado? 

O sabonete que usava fazia a mesma espuma da cachoeira da Ilha da Estrela. Era um lago cuja água cintilava dourada como a Estrela que não era lua nem sol, no céu azul da Ilha, onde os peixes eram de ouro e as pedras eram moedas de um tesouro pirata. A cachoeira borbotava no lago que se estendia a alguns metros de largura, mas que não era muito fundo, caía espumando, enchendo o ar de bolhas e um perfume jasmim. 

Lucas olhava para o chuveiro, sentia o chão frio sob os pés e a toalha felpuda no corpo ao fim do banho. Em sua Ilha seria diferente: sentiria a água dourada caindo por seus cabelos, quente, descendo os ombros e as costas; sentiria sob os pés as moedinhas redondas e achatadas e, no lugar da toalha, os braços de três mulheres o envolvendo, enchendo-o de beijos, deixando-o inegavelmente repleto de desejo. Não se prenderia a pudores da sociedade castradora que conhecia; Para quê? A natureza era assim mesmo, não era? Melhor deixar fluir do mesmo modo que a água passava por ele com fluidez enquanto mantinha os olhos fechados. 

Ficou por ali mais alguns minutos, em sua ilha particular. Hmm, qual a música que ouvia mentalmente? Lullaby do The Cure. A letra era um pouco tétrica, mas o nome, que queria dizer canção de ninar, traduzia melhor as sensações que a música trazia com a melodia do que a própria letra. Era envolvente, o tipo da música que se pode ouvir mil vezes seguidas sem se cansar, causava uma espécie de hipnose o ritmo sincopado. Não havia um solo, somente as bases repetindo-se seguidas vezes, o que lhe prendia mais a atenção. Era uma teia de aranha na qual uma vez que estivesse preso, ao tentar se libertar, se prendia mais. E com a música, aqueles olhos, os três pares de olhos, e a energia se esvaindo até o fim, até se deixar levar finalmente. 

O sonho acabou assim que a água passou de muito quente pra gelado-ártico. O chuveiro havia queimado. Por que algumas coisas não podiam ser mais simples? A água quente podia simplesmente brotar do chão ou de uma cascata, qualquer coisa assim. 

_Droga! – Lucas resmungou ao desligar o chuveiro. Ainda levou um choque. – Sem xampu no cabelo, pelo menos. 

Do lado de fora Regiane esperava pra entrar no banho com uma toalha no ombro, seguida de Marina. 

_O que é isso agora? Acampamento? Fila para usar o banheiro da minha própria casa, eu nunca vi isso! 

_Tá muito quente! – Regiane respondeu com uma cara amuada. – E a mamãe tá usando a suíte. Você demora muito, então, sentei aqui e esperei. 

_Bom, espero que vocês gostem de água gelada porque esse chuveiro queimou. 

_De novo? – exclamaram as duas irmãs juntas. 

_Sempre quando você está no banho… – Reclamou Marina. Regiane, derrotada, saiu do caminho. – Está bem, não ligo, deve estar fazendo uns quarenta graus lá fora. 

Marina entrou no banheiro e Lucas foi para o quarto. Aquele seria somente mais um domingo bucólico. Claro, se ele não tivesse para quem contar seus problemas e também sobre sua Ilha. Pegou o telefone e discou o número de Natasha. Ela ainda devia estar em casa, provavelmente aprontando suas coisas para vender no Embu. 

_Alô? – atendeu uma voz calma ao terceiro toque. 

_Oi, é… Da clínica de reabilitação? – Lucas brincou. 

_É sim, mas hoje só estou atendendo a amigos necessitados. – respondeu Natasha entrando na brincadeira – Será que eu posso ajudar? Senão, só na segunda para outros casos mais complicados. 

_Natasha, o que pode ser mais complicado que estar apaixonado por três garotas ao mesmo tempo? 

_TRÊS? – Natasha espantou-se. – Meu Deus. Você precisa mesmo de uma boa conversa. Hmm, Lu, por que você não vai pro Embu hoje comigo? Não é muito longe, eu te deixo em casa na volta. Acho até que você me ajuda a vender minhas cerâmicas. 

_Hmm, gostei da ideia. Espera só um minuto. 

Passaram-se cinco minutos, os cinco minutos necessários para convencer a mãe. Dona Lídia acabou cedendo dizendo “Só porque é a Natasha e eu gostava muito da família dela. E porque hoje ninguém vai fazer nada mesmo, acho que vou sair com seu pai. Vai logo, seu cachorro, vai, vai!” Lucas lhe prometeu trazer um anel de prata, o que ajudou a mantê-la de bom humor.

_Beleza, eu vou sim. – disse quando voltou ao telefone. 

_Ótimo. Leve o Nick, gosto dele! Passo aí em dez minutos. 

E dez minutos depois ele ouviu a buzina do Opala brilhante de Natasha. Lucas e o cachorro Nick espremeram-se no banco da frente já que o traseiro levava os vasos, quadros e caixas de Natasha. 

_Ai, ai é hoje que eu faturo, hein? Com essa carinha fofa do meu lado… 

_Ah, obrigado! – Lucas respondeu sorrindo satisfeito. 

_E esse focinho, essas orelhas compridas e peludas, esse pelo brilhante, ah!, você tomou banho hein Nick? Que menino mais fofo. 

Natasha fazia carinho no pescoço de Nick, e o cão estava em júbilo de olhos fechados no colo do dono, que agora revirava os olhos para a brincadeira da amiga. 

_Certo, já chega. – Disse tirando as mãos de Nick e ligando o carro. – Conte-me sua mais nova aventura amorosa, jovem amigo. Ah, não, me deixa adivinhar. Eu me lembro de você me contar sobre a Fabi num e-mail outro dia, aquele detalhe na casa da sua tia e tal. Hmm, você viu a Fabi de novo certo? 

_É tão evidente assim? 

_Não. Eu só te conheço bem o suficiente. Mas não sei como foi. Conte-me. 

_Encontrei a Fabiana numa festa ontem, foi meio surreal. Eu a vi sentada próxima ao balcão, ela estava de costas pra mim, mexendo no cabelo como ela sempre faz. Não acreditei que era ela! Então eu saí correndo fiquei de frente pra ela. Então ela me beijou, foi mais natural do que calor em noite de verão. Ela sorriu e se jogou pra mim. Tão espontânea, tão… Linda! Incrível. 

_Que bonito! – disse Natasha com um sorriso sincero. – Mas e aí? Vocês se acertaram? 

_Na verdade tenho medo de ter magoado o coração dela. Ela disse que… Que gosta de mim de verdade, que já se sentia balançada desde que a coisa era só amizade. Acho que sempre existiu alguma coisa, mas aquele beijo na casa da tia Leandra foi a eclosão dos nossos sentimentos sabe? Foi o nosso big-bang. E depois de ontem eu consigo ver tudo um pouco mais claro, em partes. Nossa amizade não vai mais ser a mesma e acho que beijá-la ontem foi o fechamento de um pacto. Não, não um pacto, uma declaração: “eu estou apaixonado por você, você por mim, mas deixa isso pra lá, a gente se vê.” 

Natasha compreendeu. Sabia ela que se fosse outro amigo, ela teria parado o carro, montado o ringue no meio da estrada, e estaria batendo nele com um cabo de vassoura ou pau de macarrão. Mas ele não era qualquer amigo. Ele era Lucas, seu jovem amigo, inteligente e perspicaz, um pouco avoado, apaixonado e muitas vezes frio, um cubo de gelo, um iceberg. Alguém complicado, mas que ela entendia em quase tudo. Compreendeu desta vez também. 

Uma das formas de explicar aquela paixão era dizer que Lucas era um ET e que no mundo de onde ele viera, as coisas eram muito diferentes, e era normal apaixonar-se tão intensa e constantemente. Outra forma era culpar os hormônios dos dezessete anos que faziam pulsar tão loucamente o corpo masculino. Nenhuma das explicações era satisfatória de qualquer modo. 

Ela sabia, seu melhor amigo era diferente, do tipo que gostava de andar às margens das coisas normais. Sabia que Lucas gostava de Carolina e tentava esquecê-la com tudo o que tinha, queria Fabiana como amiga, mas ela era mais do que simplesmente uma amiga. Havia mais uma pelo que o amigo havia dito. Quem era? 

_A Paolla. – Disse respondendo a pergunta de Natasha. – Amiga da escola. Ela tinha se mudado para o interior e voltou faz pouco tempo. Não consigo falar com ela! Telefone não funciona, e-mail ainda não respondeu. 

Lucas deu um muxoxo de impaciência. 

_Você gosta muito dela também. – Não era uma pergunta. 

_Desde a época da escola no ano passado. Um romance adolescente, quase platônico. Eu era tão ingênuo e ela tão tímida. Demorou seis meses até rolar um beijo e depois ela foi embora. Tivemos pouco contato desde então, ela quase não usava o computador na cidade onde estava morando, o telefone era raridade, além de sair caro, vivia ocupado, o pai dela usa no trabalho. 

“Dia 15 de Junho, aquele beijo na cantina. Ela estava tão bonita, tão cheirosa, ela é uma flor sabe Tasha.” 

_15 de Junho? Faz um ano na quinta-feira, não? 

_Nossa, é verdade! – Lucas ficou impressionado de quanto tempo havia passado desde aquele beijo. E agora ela estava de volta, ainda incomunicável, mas de volta. 

Foram conversando pelo caminho. Nick estava feliz com as orelhas abanando no vento postado na janela, tentando morder algo invisível. Finalmente chegaram e Lucas ajudou Natasha a dispor as novas mercadorias na loja. 

Era uma sala não muito grande nem muito pequena, repleta de vasos de cerâmica, quadros, gravuras, fotografias, livros e mais livros. 

_Caramba, Tasha, tudo isso é seu? 

_Na verdade nem tudo. O espaço é meu, a maioria das obras é minha, mas tem coisas de outros artistas. Aquelas fotos, por exemplo, são de um amigo fotógrafo. Ele me manda dos países aonde vai, são fotos profissionais. Ficam na minha loja, eu vendo e a comissão é minha. Os livros são dos amigos que me trazem e deixam aqui. Eu coloco preço e sempre tem alguém feliz porque achou uma raridade no meio das páginas amareladas. A galera chama isso aqui de “recanto da Tasha” ou “toca da Tasha” ou “sala precisa”. 

_É apropriado, tem muitas coisas aqui. 

_E o que não está aqui, está em casa e eu vendo pela internet. 

Natasha abriu a janela atrás de si. O sol entrava e as gavinhas estavam cada vez mais enroladas nas ripas de madeira. O chão da sala era marrom e as paredes alaranjadas. Em uma delas havia um grande deus indiano pintado em tons de azul. Lembrava a casa de Natasha. 

_Essa sala foi presente do meu avô, assim como meu Opala. Agora isto aqui, é um presente meu para o meu… Meu… 

_Seu? 

_Namorado! 

_Caramba! Deu certo então, meus parabéns! Deixa eu ver o presente. 

Natasha pegou o desenho emoldurado. Era o rosto de um índio, um índio norte-americano, com um cocar e ao fundo havia um penhasco com um lobo uivando. O índio tinha um semblante sério, muito forte. Aparentava vinte e cinco ou trinta anos.

_Ele é mais ou menos assim. – Natasha disse, com as bochechas avermelhadas. – ficou bem parecido. Eu faria uma tatuagem nas costas, mas acho um pouco grande. Mas fiz uma cobra na minha nuca, olha. 

Ela levantou os cabelos mostrando a cobra enrolada que tinha quase uns dez centímetros. 

_Eu que desenhei. É um símbolo de força e persuasão. Apesar de eu não gostar muito desse bicho, digo, pessoalmente, entende. 

Lucas teve então uma ideia vendo os desenhos da amiga. Lembrou-se da Ilha da Estrela. Natasha seria sensível para desenhá-la, não? Em seus detalhes e brilhos e até os perfumes. Aquela sensação sinestésica, será que ela podia compreendê-la? Resolveu perguntar. 

_Tasha, você realmente tem talento. Eu tenho uma sugestão pro seu próximo quadro se você quiser, claro. 

_Quero, claro que eu quero! Por que não me conta enquanto eu termino este quadro? – Natasha acabava de colocar no cavalete uma tela onde se via um cais sob o pôr-do-sol. 

Lucas então se sentou ao lado da amiga e começou a contar-lhe sobre a Ilha com detalhes. Quando chegava algum cliente ele muitas vezes atendia para não atrapalhar o trabalho da amiga que estava tão concentrada agora pintando o farol no cais, sempre pedindo uma ajuda quando não sabia que tipo de tinta ela havia usado ou qual o estilo do desenho na cerâmica. Nick também ajudava ao saudar os clientes que gostavam de cães. Venderam bem naquele dia. 

Contou a amiga sobre o astro que girava sobre a Ilha, contou sobre seu céu azul e sua areia branca. Contou sobre as três ninfas e sobre a água dourada de sua cachoeira. Disse-lhe sobre os pássaros, as flores e o cheiro doce da Ilha. Natasha, cada vez mais embevecida, criava a imagem que Lucas descrevia como se ele tivesse lhe colocado uma foto dentro da cabeça. Ela podia sim, desbravar a tal ilha, e pintá-la com traços delicados. 

Naquela noite, seus sonhos foram claros como um céu sem nuvens, como água destilada. Parecia mais um filme em terceira dimensão que propriamente um sonho, porque era mais palpável do que a doce fumaça dos sonhos…

11.16.09

Posted in Deep Inside at 1:44 por Bohone

Esse seu olhar 

“Esse seu olhar quando encontra o meu fala de umas coisas que eu não posso acreditar. Doce é sonhar, é pensar que você, gosta de mim como eu de você.” – Antônio Carlos Jobim 

http://www.youtube.com/watch?v=hsAVOQR4rEw&feature=player_embedded 

Ela sorriu. Foi pra lá do quinto beijo quando resolveram se olhar nos olhos por mais de dois segundo e finalmente conversar. Havia tanto o que falar, tanto que precisavam deixar eclodir do coração! Mas não havia ressentimento nem uma nota arrependida. Não. Havia somente uma felicidade pairando no ar. Mesmo assim, na cabeça de Lucas sua consciência sussurrava pausadamente entre dentes: “cachorro, cachorro, CACHORRO!”. 

Ora, mas cachorro por quê? Ela também o queria, não? O que havia demais se ela era mais que sua melhor amiga? Aliás, quantas melhores amigas ele tinha? Natasha, Fabiana, Paolla. Mas Natasha era sua confidente, adivinhava seus problemas, tinha com ela uma sintonia estranha e muito forte. Era sua cartomante particular, uma vidente, uma psicóloga e alguém com quem também gostava de jogar conversa fora. Fabiana era a melhor menina no mundo, não podia haver mais o que dizer sobre ela. Beijá-la era bom demais, e Lucas sabia que ela pensava o mesmo dele. Era como acender uma vela no escuro, como abrir os olhos embaixo da água e descobrir um novo universo marítimo, azul e brilhante. Paolla era também mais do que amiga simplesmente. O que será que aconteceria quando a visse? Outros beijos, talvez não… Que mal tinha? Perguntas demais. 

_De onde você conhece a Rafa? – ambos perguntaram na mesma hora. Depois riram, por um segundo se olharam nos olhos. Lucas esperou, ainda sorrindo, que ela respondesse.

_Ela é amiga de uma amiga, que, aliás, me largou aqui e foi beijar um cara num quarto por aí, no banheiro, não faço ideia. Estava começando a ter raiva dela quando me senti imensamente feliz assim que vi você! – Fabiana olhou para baixo, apertou mais a mão de Lucas, colocou novamente e mecha de cabelo para trás da orelha e sorriu tímida pra ele – E depois do seu beijo… Depois desse beijo nunca mais as coisas vão ser as mesmas! 

Opa! 

_O que… O que você quer dizer? 

_Não quero dizer nada, eu ESTOU dizendo. – Fabiana retrucou – Eu disse que se antes eu já era balançada por você agora as coisas estão mais evidentes do que nunca. 

_Balançada por mim? – Lucas não entendia. Ou, quem sabe, não queria entender. 

_Ah, Lu, por favor! Todas aquelas tardes na sua casa, o jeito que você olha pra mim, como está olhando agora, o jeito que você me beija. Como você quer que eu não sinta nada? Duvido que você também não sinta ou que pelo menos nunca sentiu; Sempre fomos tão amigos, mas nossa amizade chegou a um nível de intimidade que certas coisas acabariam acontecendo. Como aquele beijo que você me deu. Droga, acabei me apaixonando por você, não posso fazer nada! 

Lucas pensou por um segundo. Desde quando Fabi se sentia assim, balançada como ela mesma havia dito? O jeito que a olhava, como assim? Lucas sempre achou normal, era como olhar pra uma amiga com quem tinha intimidade a qual ele simplesmente achava perfeita no quesito corpo

Ah! Então era isso. Fabi era sim, sua amiga íntima. Mas não sua namorada. Era esse então o problema. Lucas a fizera se apaixonar, ou pelo menos, ela pensava que sim. 

_Mas sabe, amor, hoje eu não quero pensar em nada! – ela continuou – Se gosto de você, ou se isso é passageiro. Se a Carol disse mil coisas que não precisava ter dito ou se… 

_O quê? 

Lucas perguntou-se se havia entendido bem. O que Carol havia dito a Fabiana? 

_A Carol disse o quê? 

_Ah, isso é bobagem, Lu. – De repente, uma sombra nos olhos dela. 

_Diz logo, Fabi. 

Era suspirou contrariada. Esperou alguns segundos procurando pelas palavras certas. Finalmente ainda com ar de chateada começou a falar. 

_A Carol me ligou hoje. Disse tudo o que tinha acontecido e arrematou com “fica com ele pra você agora, não era o que você queria?”. Acho que ela está se sentindo mal por estar sem você agora, sei lá. Chateou, mas eu estava tão cansada da futilidade dela e do jeito que ela tratava você que não me importei tanto. 

_Eu não acredito! – Lucas estava perplexo – Ela não fez isso com você, mas que coisa! A Carol não pensa! Não tem nada na cabecinha dela, que droga, QUE DROGA! 

Lucas deu um murro no balcão do bar. Se antes se sentia culpado, não havia o que comparar ao lixo que se sentia agora. Fizera duas amigas brigarem, beijara uma garota que não era sua namorada. Seu erro era amar demais, ou talvez, simplesmente fosse um grande idiota. Estava mais para a segunda opção. 

_Ei, por que tá assim? – Fabi perguntou erguendo o queixo do amigo. – Esquece essa garota, ela deixou você, ela foi muito burra. Não dá pra entender como ela pôde abandonar esses olhos lindos por uma coisa que não existe, que não é concreta. 

“Eu nunca deixaria você por um idiota daqueles! Nenhuma menina inteligente o suficiente faria isso. O cara é um merda, Lu, não vale nada. Um Don Juan idiota. Você deveria rir da cara dela, do mesmo jeito que eu. Eu tenho dois motivos pra rir: Um, ela é uma idiota e dois, quem está com você hoje sou eu, e vai valer muito à pena nem que seja por poucas horas. Aliás, já valeu, está valendo cada segundo que passa. 

“Desde o fim de semana fiquei pensando em você por horas, cada uma que eu tinha livre e metade das outras que não tinha. Agora eu não sei o que eu faço, me apaixonei pelo meu melhor amigo. Mas eu sei aproveitar, quero parar de pensar e curtir essa noite com você”. 

Lucas lembrou-se do e-mail de Fabiana. Ela tinha razão quando dizia que nunca seria para ele o que Carol havia sido e ainda era. Carolina era perpétua, a personagem que menos aparecia em sua vida, mas a de maior efeito sobre toda e qualquer outra. 

Sabia agora o que ela queria dizer quando dizia que depois daquela festa a amizade jamais seria a mesma, e mesmo assim, fingia não acreditar. Pensar em Fabi como um estepe não era uma opção, ela era sim a garota perfeita, não uma substituta. Mas não para ele, isso só Carolina sabia ser, perfeita com tantos defeitos. Droga! Por que não havia escolhido Fabiana, Paolla ou qualquer garota bonita do colégio? Por que não escolhia uma menina por semana, ele sabia que podia, tinha tantas dando em cima dele. Inferno… 

_Bom, não dá pra ficar aqui chorando. – Lucas disse ao perceber o quanto a garota estava bonita no shortinho preto e na regata branca. – Não com uma garota linda como você. 

Mais um sorriso dela e ambos estavam na pista de dança. Era impossível não reparar naquelas coxas. Parecia de propósito. Numa outra hora depois de uma ou duas seleções do DJ, acabaram por ficar sentados na grama próxima a piscina, no quintal da casa. Ela de joelhos juntos, tornozelos cruzados, mãos apoiadas no chão. Ele com um braço em volta dela, uma das mãos enrolando uma mecha do cabelo castanho como costumava fazer. 

_Esses sapatos ainda vão me matar! – Fabiana disse exageradamente tirando os sapatos de salto dispondo-os ao seu lado no chão. 

_Você ficou linda assim. Você é sempre linda, mas hoje err… Bom, Hoje você está um arraso, acabou comigo! 

Ela riu sem graça e abraçou-se a ele. Lucas a olhava sem parar e via nitidamente em seus olhos, desejo, um pedido desesperado por um beijo mais quente acompanhado de um sorriso endiabrado. Lucas não teve dúvida quando não viu ninguém por perto e a derrubou na grama com um beijo. 

Fabiana era forte: empurrou-o para baixo e então rolaram umas duas vezes na brincadeira de quem pode mais. Ninguém na festa parecia se preocupar, o único que os vigiava era o holofote de luz cor-de-rosa que iluminava um tecido branco próximo a piscina, dando efeito de maior amplitude. Havia outras lâmpadas em volta da piscina e algumas palmeiras artificiais. Lembrava uma ilha tropical dessas de cenário de videoclipe. Havia até uma sereia, mas essa tinha duas pernas, e, ah, Deus, que pernas! 

_Lu, melhor parar antes que eu não resista! – Fabiana deu uma gargalhada. A música alta impediu que fosse ouvida. 

_Sua boba. Que coisa, Fabi, por que você faz isso comigo? 

_Isso o quê? – Disse ela sem entender. 

_Por que tem que ser tão bonita e me envolver desse jeito? 

Ambos estavam ainda à beira da piscina sentados sobre a grama verdinha cortada no mesmo dia mais cedo. Agora olhavam para estrelas e Fabi resolveu não responder à pergunta tola. Ora, por quê? Era só isso o que ela queria, tudo que a ex melhor amiga havia tido e jogado pelos ares por uma ilusão que ia passar. Ela tinha quase certeza, Carol voltaria e choraria sobre aquele peito moreno, e pediria para voltar. Será que ele resistiria? Será que suportaria ver a garota que amava ali, chorando, pedindo desculpas. Ainda mais se Carol golpeasse baixo, bem baixo, e aparecesse com aquele vestido azul que ele tanto gostava. 

Não havia vestido azul nem de nenhuma outra cor que o faria amar Fabiana com o mesmo fervor que amava Carolina. Sem contar com as outras mil garotas que ele conhecia, as outras mil festas que gostava de ir, o clube, a escola, o futebol. Fabi sabia, não tinha muitas chances, e então, com o fim do calor do beijo louco sob o céu limpo daquele sábado à noite, pela primeira vez depois que o viu, teve vontade de chorar. 

Mas ela era forte, um alicerce, uma fortaleza. Sempre soube se virar, por que agora não saberia? Que mal tinha em terminar aquela noite ao lado dele. Um beijo ou outro. Dançar um pouco, um drink a mais, só porque ele estava ali. Por que não deixar seu coração bater mais forte por ele? Um dia por fim ele pararia. 

E, depois, quando a noite chegasse ao fim, melhor seria deixá-lo ir e sonhar com ele por mais uma semana. Enfim, não ligaria mais. Não perderia tempo noutro caminho que não fosse o de sua própria vida. Se ele quisesse, se ele pudesse, iria procurá-la se sentisse sua falta. Se precisasse da voz dela para dormir bem, numa noite após um dia que deu errado, ou se desejasse relembrar das tardes quentes sob o sol, deitado no colo dela, bom, ele saberia o número do telefone e também o número da casa dela na Rua 15, Vila Lucila. 

Fabi resolveu então abraçá-lo. Aproveitou que Lucas devaneava perdido em pensamentos no meio do cosmos, para fingir que estava bem e arriscar um sorriso. Mais um beijo, mais dois. A noite foi passando até que chegou ao fim.

10.05.09

Posted in Deep Inside at 3:27 por Bohone

Uma semana 

“Não há tempo nesse mundo que me faça te esquecer. Ah Senhora Mãe ajudai quem perdeu seu bem querer” – Lamento, Manacá 

Meia-noite. Finalmente aquela droga de segunda-feira havia acabado. Era muito para assimilar, fora um dia longo demais. Lucas sentiu o peso de encarar os fatos sozinho: a consciência pesada em beijar outra garota, o convite inesperado para uma festa, o namoro acabado, sua mãe magoada e por fim, uma garota a mais entrando naquela roda. 

Era como se Carol, Fabi e agora Paolla formassem uma ciranda e Lucas estava no meio delas, girando, girando, girando até que ele ficasse tonto. Mas diante da situação, o que ele podia pedir? Parem, por favor? O que podia fazer se gostava das três? De modos diferentes, mas ainda assim, gostava das três. Fabi era linda, inteligente, uma amiga maravilhosa e sem dúvida seria a namorada perfeita; Paolla era uma parte dele que fazia falta, o calor que sentia e esvanecia toda vez que ela o deixava. Mas paixão, amor, fogo, desejo, carinho e afeto, tudo ao mesmo tempo e tão forte, isso só sentia por Carolina. Ela era uma incógnita. Na verdade era duas: XX. Malditos cromossomos, maldita genética que a fizera assim, tão linda e indiferente, indefectível feito o veneno da víbora no meio do deserto. Talvez seu DNA tivesse a resposta porque nada mais explicava. Uma lua cintilante na Terra, mais forte que o calor de Paolla e mais linda que a beleza de Fabiana. Carol, Carol, aquela diaba! Que o deixava louco tremendo de frio em dia de sol quente e de febre quando não estava doente. Sua vida e sua pior doença era ela, e naquele momento percebeu que nenhuma outra a substituiria.

_Eu sou um cachorro, um imbecil – Lucas se menosprezava sozinho, falava baixo. – Mas ela é pior que eu. 

Verdade? Lucas respirou, contou até dez, vinte, trinta, até cem. Achou melhor trocar de roupa e dormir, nada melhor que o sono para apagar algumas lembranças ainda que momentâneas; Pelo menos era nisso que acreditava, mas mesmo as mais antigas e arraigadas crenças nos enganam sutilmente. 

O globo espelhado preso ao teto ainda brilhava com a luz fraca azul que vinha do abajur. Azul era uma cor harmônica, o acalmava. Deixou que o globo brilhasse e ficou mirando-o deitado na cama com as mãos na nuca. Aqueles pedacinhos, as centelhas que formavam o globo, faziam parte de seu céu particular, eram suas estrelas já que sua cama ficava de costas para a janela, e não se podia ver o firmamento com clareza ali deitado. De repente sentiu falta da lua, de sua lua particular, sentiu saudades de seu brilho e de sorrir tranquilo ao observá-la, a mais linda das obras da natureza. 

Seus olhos se afoguearam com as lembranças, arderam até a primeira lágrima cair. Foi um alívio, e também foram as outras que seguiram. Mesmo com o calor que sua pele emanava, sentia frio. Puxou o cobertor, deitou-se de lado e se encolheu. Molhou o travesseiro com seu choro silencioso que durou até o cansaço vencê-lo de vez. Dormiu finalmente. 

Que filme sua tela mental decidira passar nesta noite? Hmm, cheiro de água fresca. Era Paolla. E com naturalidade ela sorria, com franqueza. Lucas gostava de vê-la como se estivesse acima de outras pessoas. Ela sabia de tudo, via o mundo pelo lado de fora. Na chuva, não se escondia vendo-a por trás da janela lá fora. Decidiu ficar lá, na esquina da casa da família Prudente. Lucas a viu chegar.

_Sai dessa chuva, sua doida! – Lucas não sabia se ria ou gritava com ela. 

Paolla dançava na chuva, não parecia se importar. Gargalhava, na verdade. Não chegava a ser um temporal, uma torrente. Só estava chovendo um pouco forte. 

Ao contrário de Carol que via romance na chuva e Fabiana que tinha medo de se molhar, Paolla era zombeteira. Sabia rir e fazia Lucas rir com aquela coreografia improvisada, uma tentativa de Singing in the Rain sem o singing. Era estranho como seus sonhos, reais ou não, tinham maior efeito quando chovia. Carol o havia beijado sob o temporal. Fabiana se escondera com ele da chuva e o beijara ouvindo uma balada envolvente, enquanto o mundo borbotava em água. Paolla resolvera brincar pulando poças, toda molhada, girando o guarda-chuva. O resultado seria qual? Um beijo? Não seria surpresa.

Lucas descia as escadas correndo. A casa estava vazia, nem Nick estava em seu canto chiando por causa do barulho da água caindo do céu. Só havia ele, e agora, Paolla. Abriu a porta para ela, e de repente, notou que o dia estava ensolarado e ela estava completamente seca, exibindo seu sorriso franco, honesto para quem merecesse. Afinal, também sabia reconhecer quem não precisasse dele. 

Não houve um beijo nem um abraço, diferente do que ele havia pensado. Só o sorriso lindo dela e os olhos brilhantes por uma fração de segundo. Mas já valia a pena. 

“Stars when you shine you know how I feel, scent of the pine you know how I feel. Yeah freedom is my life and you know how I feel. It’s a new dawn it’s a new day it’s a new life for me and I’m feeling good!”

O despertador resolveu tocar cedo demais naquela terça-feira. Mas Feeling Good era uma ótima canção para acordar, a letra era feliz, mas não a melodia, esta era melancólica. Lucas sentiu-se sonolento quando, ao final da música programada no celular para tocar às 6 horas da manhã, finalmente abriu os olhos para outro dia. 

_Bom dia, filho. – Disse a mãe de hobby. 

_Oi, mãe. – Lucas beijou-a no rosto e adiantou-se para pegar uma xícara de café puro. Quase queimou a língua na pressa de bebê-lo. – Nossa isso tá quente! 

_Claro, Lu, mamãe acabou de fazer. Dormiu bem esta noite? 

_Dormi pouco, mas não fiquei me debatendo na cama. – E lançou um olhar de censura risonho para a mãe. Na véspera soubera que ela o espionava enquanto dormia.

_Entendi. Filho, eu posso fazer uma pergunta?

_Já fez mãe, mas tudo bem faça outra. O que quer saber?

_Queria saber como você está. – Lídia estava receosa, não sabia até onde o filho lhe permitiria espaço. Torcia o nariz. – Seu namoro acabou, e quando você precisou correr para a casa da Natasha, achei que seu coração não devia estar muito bem, sabe? E tem a Fabi também. Eu percebi o jeito de vocês dois no domingo. Parece tudo uma grande bagunça até para nós que somos sua família, entende? 

_Ah, sabe quem mais entrou pra essa história mãe? Acho que você se lembra da Paolla né?

_Sim, mas ela não tinha se mudado? 

_Acabou de voltar! – Lucas disse com um sorriso irônico, fingindo não perceber que a mãe agora assumia um semblante de “tempo fechado”. – Ela me mandou um e-mail, disse que precisa conversar, não sei bem o motivo. Mas enfim. 

“Já que você perguntou mãe, não, eu não estou nada bem. Mas já que não dá pra fazer mais nada, eu finjo, eu invento que está tudo ótimo e pronto. Deixa meus problemas pra lá. A Fabi também me escreveu, mas ainda não sei se vou responder. A Carol… Esquece a Carol! A Paolla eu quero ver assim que eu puder. O resto o tempo vai resolver.” 

Dona Lídia estava de braços cruzados, encostada na parede, muito insatisfeita. Aquele jeito de brava já não assustava Lucas, ele sabia como lidar com a arrogância da mãe. No fundo tinha certeza de que ela não era assim, de que era um doce. Só se preocupava demais. 

_Sei. Conheço você, filho. E conheço essa história! Elas são sempre suas “amigas”, e logo eu vejo você de mau humor pra lá e pra cá por causa delas, nunca fica em casa por causa delas, sem contar que elas sempre ligam chorando por sua causa. Mas se eu digo alguma coisa, sou a chata, a quadrada, a carrasca, a malvada. – E então, suspirou e continuou num tom mais ameno e maternal. – Eu sinto falta de você, filho. Suas irmãs, seu pai também, e acho que até os seus amigos. Para e pensa, sossega um pouco, seu cachorro incorrigível!

A última palavra era sempre dela. Saiu andando e deixou Lucas sozinho com sua consciência. Mas, o que ela tinha dito? Cachorro? 

_Ai, essa doeu! – Exclamou sem nenhum ouvinte. 

De certa forma ela tinha razão. De agora em diante, o número do telefone de casa não daria nunca mais! E para algumas nem mesmo o celular. 

De tudo, só não concordava com a mãe em uma coisa: ele não era um cachorro, era mais parecido com um gato. Independente, sempre arranjando um jeito de escapar de quem tentasse segurá-lo, de gênio dócil quando queria. Arranhava também, fazia manha, mas pouco. Era um gato de subúrbio, livre, mas não tanto assim. Certas coisas o prendiam. 

Depois de um banho rápido, Lucas pegou a mochila e foi para escola. No caminho tentou não pensar em nada. Anotou num bloco de papel amarelo algumas coisas que precisava fazer. 

Paolla – Ligar ainda hoje!

Carol – …

Fabi – Certo, o e-mail dela me balançou, mas deixe que ela fique lá.

Família – Hmm, reunião no fim de semana, quem sabe?

Escola – Sim, preciso estudar.

Amigos – Futebol no clube na quinta-feira.

Festa no sábado – Resolver logo com que roupa ir (sou uma garota para escolher roupas!)

 

O ônibus parou perto da porta da escola. Lucas subiu as escadas que levavam até a sala aonde teria a primeira aula. Checou novamente seus horários e se dirigiu ao laboratório de biologia no segundo andar. 

_Muito bem, turma, em duplas. – O professor Christian tinha nas mãos uma caixa de lâminas de metal. – Teste de tipo sanguíneo, não é legal, gente? Se alguém não quiser fazer pode sair da sala que eu passo outra atividade depois, não tem problema. Eu sei que algumas pessoas passam mal, e eu não quero ninguém ficando verde aqui! Só não façam barulho aí fora no corredor. 

Cinco alunas saíram. Os outros alunos apesar de torcerem um pouco o nariz, resolveram ficar. Lucas ainda não tinha escolhido sua dupla. Havia três garotas olhando para ele, como sempre faziam. Aquele era seu fã clube, por assim dizer. Ana, Renata e Camila vestiam as mesmas marcas, usavam o cabelo igual e talvez em algum lugar do corpo estivesse escrita a numeração do lote de fábrica 001, 002 e 003. Se outra garota entrasse na sala e fosse como elas, loira, magricela, sem graça nem conteúdo, certamente seria o número 004. 

Os pares foram se arranjando, e antes que Renata completasse sua corrida até ele, Lucas disfarçou e gritou: 

_Louise! 

Louise era uma menina bonita, mas não estava dentro do padrão. Seu rosto tinha traços quadrados quase masculinos. Não usava maquiagem, não que precisasse, tinha a pele perfeita e olhos cor de âmbar. Seus cabelos pretos muito lisos escorriam pelas costas. Estava sempre com um jeans surrado, camiseta básica e um all star puído. Era extremamente inteligente, simpática e tinha muitos amigos diferentemente das garotas dos filmes, as “lindas-garotas-feias”. 

_Ah, oi, Lucas! Quer se sentar comigo? 

Louise era meiga, um amor de menina. Lucas conteve a risada ao ver Renata decepcionada. Lucas sentou-se ao lado de Louise e ouviram às instruções do professor. 

_Então vocês furam o dedo assim – Apertou a lâmina contra o indicador. – apertem o dedo no cartão e preste atenção em qual das superfícies o antígeno faz efeito. Vamos lá, não é difícil. Ajudem os colegas da dupla, certo? 

O trabalho não era difícil, era até divertido para quem não passava mal ao ver sangue. 

_Sangue não te incomoda? 

_Não, Louise. Na verdade eu acho bem legal! – Lucas respondeu. 

_Eu acho o Álvares de Azevedo legal, e tem muito sangue nas histórias dele. É divertido, fiz uma peça dele no semestre passado. Romantismo, sabe? Século XVIII, é tudo muito tétrico: sangue, morte, cemitérios. – Louise ainda tentava estancar o sangue com uma gaze. 

_Você é tão inteligente. 

_Muito obrigada! – A garota corou – Acho que nunca conversamos muito. Você entrou na escola esse ano, certo? 

_É. Fui transferido, ganhei uma bolsa aqui pra fazer o último ano. Gosto da escola, conheci muitas pessoas, só não tive muito tempo para fazer amigos aqui, só conversas rápidas, sabe?

_Entendo. Se precisar de ajuda e quiser conhecer pessoas legais pode ficar a vontade quando quiser andar comigo. Tenho certeza que as pessoas que eu conheço são diferentes do seu err… Seu fã clube. 

Ambos riram quando olharam para a direita e viram Camila e Ana resmungando por causa dos pequenos cortes no dedo; Renata estava no fundo da sala com um garoto bonito. 

_Obrigado Louise, de verdade! 

_Disponha! Quando quiser ajuda para estudar também, não tenha vergonha. 

_Na verdade eu vou precisar sim. A professora Nádia já andou me dando umas chamadas, sabe? Ela deve ter visto meu histórico da outra escola, sabe que minhas notas são boas e não admite um sete no meu boletim. 

_Ah, a Nádia é assim mesmo! – Louise disse. – Ela força todo mundo, mas você se acostuma. 

A aula de biologia terminou e Lucas sentou-se ao lado da nova amiga durante todas as outras. Descobriu em Louise uma garota diferente das outras, gostava de conversar com ela. 

Na outra escola as coisas eram mais fáceis. Aqui o trabalho era mais pesado, o Colégio Juscelino Kubitschek, o JK como o chamavam, matinha o nível de melhor escola particular no Estado de São Paulo. De tão grande, havia ainda lugares que Lucas desconhecia na própria escola. 

Como sempre fazia, jogou bola com os garotos durante o intervalo. Era divertido, ajudava a se distrair. Conversou com os caras, olhou para as garotas que passavam, disse as bobagens habituais. Depois as aulas correram, voaram até que chegaram ao fim, e Louise mostrou-se uma companhia muito agradável e divertida. 

Na hora da saída, Lucas correu para casa, nunca havia se apressado tanto para pegar um ônibus. Quase ficou nervoso com o motorista lento. Será que ninguém entendia que ele precisava conversar com Paolla? Estava louco para ligar pra ela. 

Desceu do ônibus e virou a esquina correndo. Abriu a porta, subiu as escadas com pressa. Disse “oi” para a empregada Nanci, que havia sido também sua babá quando era pequeno. Nanci deu risada ao ver aquela cena, o menino e o cachorro, os dois correndo desenfreados, e Nick já estava aos seus calcanhares latindo atrás do dono. Queria saber as novidades. Lucas largou a mochila e foi correndo para o telefone, discou o número de Paolla.

Tu, tu, tu, tu… Estava ocupado. Lucas insistiu, estava muito ansioso. Tu, tu, tu, tu… Que droga! Desistiu momentaneamente após dez tentativas frustradas. Não pretendia, mas deu-se por vencido e ligou o computador. Ia mandar um e-mail, fazer o quê?

Sentou-se muito contrariado e esperou que o micro ligasse. Por que não podia ouvir a voz dela, tinha que escrever? Lucas gostava de escrever, mas preferia usar a voz e os olhos para certos problemas. Finalmente o micro ligou, estava conectado à internet, e então, as letras nunca voaram tão rápido sob seus dedos. 

Paolla!

          Você não sabe o quanto eu fiquei feliz em saber que você está de volta, em saber que eu posso ter você pra mim aqui perto ainda mais quando as coisas estão tão difíceis pra nós dois.

         Tentei ligar na sua casa, fiquei louco porque estava ocupado, telefonei uma dez vezes! Seu telefone está com problemas? Fiquei MUITO frustrado! Mas fiquei feliz em ver o sol hoje cedo. Ele me traz um calor parecido com o seu e brilha que nem nossa amizade. Lembra dos dias em que a gente saía, ia andar por aí, conversar e depois ver as estrelas da varanda da minha casa? Sinto falta de tocar violão pra você, você sempre pedia.

         Tanta coisa aconteceu depois que você foi embora. Acho que da minha namorada você se lembra né? Bom, ela terminou comigo ontem, mas isso não interessa, pelo menos não por e-mail. Na verdade eu estou um pouco (muito mesmo) de saco cheio dessa história. Acabei me afastando um pouco da minha família, preciso reconquistá-la, sabe? Fiz uma amiga nova hoje, fui convidado pra uma festa ontem. Posso dizer que as coisas estão melhorando agora. Ainda mais depois que você voltou!

         Preciso saber quando posso ver você, nem que seja por meia-hora. A distância e esse tempo todo devem ter deixado você diferente, mas acho que só na aparência. O gênio ainda é o mesmo, com certeza!

 

Por favor, me procura ou faz alguma coisa (qualquer coisa) pra que eu possa te encontrar! Tô morrendo de saudades!

 Lu.

 

Pronto. Agora restava esperar que ela respondesse. Então o tempo foi passando como um vôo rasante. A terça-feira acabou, seguiu a quarta que passou num instante. A companhia de Louise ajudava enquanto a resposta de Paolla não vinha e quase o matava de ansiedade. Resolveu estudar, afinal, a semana seguinte seria de provas e mais provas. Droga de provas mensais! O bom era poder se distrair com matemática enquanto ela não telefonava, com química enquanto ela não aparecia, com biologia enquanto ela não podia abraçá-lo e filosofia enquanto não podia ver seus olhos. Que falta fazia a melhor amiga, a melhor menina no mundo todo! 

Quinta-feira, sexta… Pensar nela era inevitável. Lembrava toda hora daquele beijo com gosto de coca-cola, um único beijo, atrás da cantina da escola, algumas semanas antes da mudança. Droga, porque ela tinha que ir embora? Ainda por cima antes das férias de Julho. Em Setembro veio Carol, em Maio, Fabiana, mas Junho passado guardava uma lembrança gostosa. Sentia falta daquele perfume gostoso os cabelos castanhos dela e de enrolar algumas mexas nos dedos. Tinha saudades até daquilo que não tinha feito segurando as mãos delicadas dela quase um ano antes. 

Finalmente sábado. Nenhuma resposta, alguma coisa havia acontecido certamente. Oito da noite e Lucas ainda não se decidira. 

_Roxa… Verde-limão… Roxa… Verde-limão – Lucas estava sozinho no quarto, olhando pra duas camisetas que estavam sobre a cama. Não sabia qual escolher. – Droga, pareço uma garota! Minha irmã escolhe roupa mais rápido que eu.

Sem olhar de novo, vestiu a verde-limão. Olhou-se no espelho. A pele morena, os ombros largos, os olhos castanhos brilhantes. Era isso que chamava a atenção daquelas garotas na escola? Nunca admitiria que tivesse alguma coisa especial, um charme. Mas era fato que tinha, sempre teve.

O globo espelhado no teto refletia alguém indo de um lado pro outro. O perfume aqui, a carteira ali, o pente em cima da cama, aproveita e leva a toalha para o banheiro. Arrumar-se dava certo trabalho. 

Logo sua carona estaria na porta. Ricardo passaria mais tarde com um amigo mais velho que já dirigia. Dependendo do trânsito, a viagem entre o Ipiranga e a Vila Mariana seria rápida. Não havia ninguém em casa. Melhor assim, Lucas não ficava tranquilo quando todas as vezes que se arrumava pra sair, a mãe ficava dando sermão e a irmã mais velha dando risada. Era bom que a família estivesse ausente certas horas.

Então, depois de uns dês minutos, a buzina tocou. Lucas olhou no espelho mais uma vez, e, muito rapidamente, trocou a camiseta verde-limão pela roxa.

_Ah, muito, muito melhor assim!

Pegou a carteira, enfiou-a no bolso e desceu as escadas. Cumprimentou os dois caras dentro da 4×4. Um era Ricardo, o colega do terceiro B, o outro era Diego, que dirigia o carro do pai. Parecia que a festa começava ali: o som eletrônico estava bem alto, as janelas abertas, as garotas que passavam morriam de vergonha com as cantadas. As mais atiradas ainda mandavam beijos e sorriam. 

_É a terceira casa virando naquela rua. 

Casa? Era uma mansão, não uma casa. Ricardo tinha razão. Nove horas da noite, e em frente à casa havia alguns casais bem comportados, algumas pessoas entrando com presentes e a aniversariante na porta. Era uma garota baixinha com cara de fada.

_Ei, Rafa! – Ricardo abraçou a amiga, entregou um pequeno embrulho que ela agradeceu. – Esses são o Lucas e o Diego. 

_E ai, meninos?  – Rafaela ficava na ponta dos pés a cada vez que abraçava algum deles. – Vem, a festa é aqui dentro! 

_E seus pais, Rafa?

_O que têm eles? – disse enquanto tomava um drink por um canudo.

_Sabem dessa loucura de festa? 

_Claro, eles estão lá em cima! A casa é grande, pra que alugar um Buffet? 

Rafaela apresentou as amigas para os garotos. Diego logo estava dançando com uma delas. O teto estava coberto de luzes coloridas, o chão, repleto de fumaça. Lucas chegou a dançar com algumas garotas, conversou com outras. Foi quando, depois de uma hora de festa, num flash muito rápido, olhou para trás. 

No bar havia uma garota sozinha, sentada com os tornozelos cruzados num banco alto desses de balcão. Estava de costas, e então, passou a mão nos cabelos castanho-claros colocando-os para trás, mostrando o lado esquerdo do rosto bonito; Tomava um drink igual ao de Rafaela. Lucas pensou que fosse uma miragem, uma visão. Não, não era. Fabiana estava mesmo lá, sozinha, sentada no bar. 

Não pensou duas vezes: correu até ela e não lhe negou um sorriso quando viu aquele olhar perplexo, e, sem palavras, ela se atirou em seus braços, pressionou os lábios contra os dele. Logo era a língua, a boca quente, as mãos encaixadas perfeitamente. Era impossível dizer não, era impossível parar. Segurou-a pela cintura e levantou-a alguns centímetros do chão sem soltá-la dos lábios. Uma sensação de deja vu invadiu-lhe o corpo. Lembrou-se daquela música no violão, do domingo quente, da chuva pesada e lembrou-se do beijo. Este de agora era exatamente igual. A mesma delícia, o mesmo calor. Droga, por que ela tinha que ser tão linda? Por que fazia isso? Mas, que diferença fazia pensar demais? Resolveu então, beijá-la até que as estrelas caíssem do céu

09.24.09

Posted in Deep Inside at 3:40 por Bohone

Pesado coração de ouro 

Lucas continuou a retórica e encheu algumas linhas de algumas páginas, não escreveu muito naquela noite. Fez uma breve anotação no post script sobre o sábado:

 Sábado, 1º de Junho

8h30min, Alameda Antonina, 157 – Vila Mariana

8650 -6000 – Ricardo, 3ºB

Havia pouco Lucas telefonara para o colega do terceiro B. Não havia motivo para ficar em casa quando tantas garotas bonitas estariam desfilando de um lado para o outro numa festa como poucas. E Lucas não era mais criança, estava perto de seus dezoito anos, alguma coisa da vida ele podia aproveitar. Hmm, que tal curtir com os amigos e ver (conhecer melhor) algumas garotas, garotas, mais garotas… Ajudariam certamente a esquecer certos problemas. 

Não era difícil chegar à Vila Mariana, seu pai poderia dar uma carona, porque se a festa fosse um pouquinho modesta, ele iria de metrô sem problemas. Mas se vestir bem, e andar de metrô na madrugada, não era bem uma opção. 

_Cara, aquilo é um casarão enorme, igual daqueles filmes americanos, sabe? – Foi Ricardo quem disse havia pouco numa conversa pelo telefone – Legal você querer ir com a gente. Quer dizer, achei que você não fosse, você estava com uma cara hoje, meio desanimada. Aconteceu alguma coisa, cara? Alguma garota ou coisa assim? 

Lucas ponderou. Não sabia até onde podia falar ou queria falar de seus problemas. Problemas… Grande coisa num mundo onde se morre de fome. Melhor ignorar a gravidade de um cortezinho perto de um transplante complicado de coração. Não era nada demais. 

_Foi por causa de uma garota sim, e, nossa, que garota! Minha namorada, que agora é ex-namorada. Não sei se ainda vou entender o que aconteceu, mas… – Lucas se ateve a um suspiro e então continuou – a vida é que nem uma roda boba que vive girando e uma hora ela para, o jogo vira, o mundo cai e a gente tem que se virar, não tem jeito. Por isso eu decidi ir nessa festa e também porque faz muito tempo que não saio com os caras sabe? Clube do Bolinha. 

Os dois riram, disseram mais algumas bobagens e coisas das quais os garotos entendem bem. Uma conversa normal entre amigos, simples como deve ser e não muito longa. 

Lucas ainda estava parado sem pensar em nada, olhando para o endereço. Depois sentiu alguma coisa, como uma felicidade instantânea, um acordar ao sol depois de um longo período de sono no frio da noite, e ver o brilho chegando à janela aberta com uma brisinha leve. Finalmente havia se lembrado do quanto aquelas festas, as amigas, as baladas e os amigos faziam falta. 

Deparou-se com o pensamento meio longe, em lembranças mais distantes. Mas foi outra coisa que lhe chamou atenção: um barulho no estômago; Sentia fome, era óbvio. 

Na geladeira tinha salada de manjericão, alface, tomate cereja e molho italiano. Light demais, mas servia. Depois comeu, distraído, duas caixas de morango. Não pensava em nada, sentia-se avoado. 

Mais tarde resolveu responder a alguns e-mails, havia mais de uma semana que não chegava perto do computador. Recados de amigas perguntando o motivo do sumiço; Convites diversos, bilhetes bonitinhos e algumas mensagens da família. Mas foram duas em especial que chamaram sua atenção, nenhuma esperada, era verdade. O aperto que sentiu no coração não foi nada agradável ao ver dois nomes na caixa de entrada. “Voltei para casa, Lu!”. Esse era o assunto do e-mail de Paolla, do dia anterior. 

Paolla era dona de um sorriso alucinante, cheia de alegria. Não andava, dançava; Não falava, cantava com sua voz um pouquinho rouca de contralto, que combinava com o corpo de mulherão e com um vestido preto de algodão que ela gostava de usar. Caía como luva nela, da mesma forma que os cabelos castanhos caiam naturais pelos ombros. Lucas se lembrava bem, Paolla tinha perfume de água fresca, uma fragrância difícil de decifrar e de perceber. Dizer que seu enleio com ela fosse somente um caso a mais, ou um romance adolescente seria hipocrisia. Não, era mais que isso. 

Se fosse mesmo louco por Carolina, amasse Fabiana, com certeza por Paolla sentia-se apaixonado. Era difícil não se apaixonar por alguém como ela, ainda que ela fosse calada, fosse toda sorrisos, emagrecesse de uma hora pra outra, gostasse de batom cor-de-rosa e de balões. Paolla era como ele: era solitária na multidão, sabia encarar os fatos, e tinha um infinito particular inacessível. Ou quase inacessível. 

Havia alguns meses Paolla se mudara para o interior. O pai conseguira um emprego, uma boa casa, enfim, mudaram-se. Mas ela agora estava de volta e isso fazia Lucas sentir-se estonteante!

Sua história era um amor platônico, antigo, antes de Carolina, antes de Fabiana. Um amor de escola que cultuaram no primeiro ano, no segundo fizeram valer e no terceiro, despediram-se dele, de uma forma tão natural uma despedida de amigos que diz “até logo”. A cidade onde ela fora morar não era assim tão longe, mas o dia-a-dia afasta as pessoas ainda mais que a geografia que já faz isso por elas.

 Lu,

 Voltei pra minha casa, finalmente!

Quatro meses naquela cidade-ovo, sem meus amigos e sem você. Estava ficando difícil. Na verdade ainda está difícil, não vou te enganar.

Não foi muita coisa o que aconteceu. Quer dizer, foi uma coisa só, que gerou mais outras mil, enfim, logo posso contar para você pessoalmente.

Não sei como vão ficar as coisas ainda, mas se quiser ligar, ainda é aquele número antigo da minha casa (Meu celular? Perdi no matão daquela cidade horrível). Passe aqui, mande um e-mail, sei lá. Mas apareça, preciso muito de você agora e sempre!

Todo amor do mundo,

P. Vilanni

 E agora? Paolla estava de volta, era verdade, mas alguma coisa havia acontecido. Lucas olhou o relógio, passava das onze da noite. Incomodá-la agora com o telefone não parecia uma boa ideia, aliás, não era. Ainda mais numa situação dessas. Responder com outro e-mail seria mal educado já que suas mãos estavam trêmulas demais com a ansiedade em ler o e-mail de Paolla e também com as notícias do outro e-mail que logo abriria. Telefonaria no dia seguinte, e então poderiam conversar com calma. 

O segundo e-mail não tinha assunto. O remetente dispensava apresentações: nova mensagem de Fabi Escobar. Por que, céus, por que ela teria perdido seu precioso tempo com qualquer coisa que tivesse escrito? Por um momento Lucas considerou a hipótese de apagá-lo sem ler. Então pensou no que sentia por ela, o que era aquilo afinal? Ódio gratuito? Não, não tão gratuito assim. Acabou por abri-lo.

 

Fiquei por horas pensando ontem à noite. E vai ser assim até quando eu não sei. Muito difícil não pensar em você, não lembrar aquela música ou a textura do nosso beijo quente com sabor sei lá do que, mas que foi bom.  

Minha vida estava relativamente tranquila. Com altos e baixos, mas sempre aguentei tudo o que Deus, o destino ou a sorte/azar, sei lá, botaram no meu caminho. Nunca quis ajuda de ninguém. Orgulho não é nada bom, sabe? De tanto você fingir que pode, fingir que consegue, quando você chega ao fim da linha ninguém vem te socorrer, afinal, sua fama é de lutador mesmo. Pros mais maldosos você tem o nariz empinado e quer resolver tudo do seu jeito. Eu disse maldosos, mas não mentirosos. 

Nesse tempo todo eu tive você, pude contar com você. E então joguei você fora, disse que eu não me importava e que aquele beijo não significava absolutamente nada. Mentira, mentira, meu Deus, como eu consegui? Eu tinha um plano: esconder tudo de você até um dia qualquer, quando a gente se encontrasse na rua, eu com meus filhos e você com sua esposa. Então, assim que ela se distraísse, eu tentaria fazer você se lembrar da nossa adolescência e daquele beijo de amigos na casa da sua tia num dia bonito, numa conversa boba, nada intencional. Então daríamos risada, um até logo e provavelmente nunca mais eu veria você. 

Mas então eu pensei “e se ele realmente se lembrasse?” e então encontrei um problema. E então, se nós dois quiséssemos, largaríamos nossas famílias primeiro às quartas-feiras com a desculpa de futebol e do salão de beleza; depois também às sextas com qualquer desculpa, não importaria. Champanhe, quartos a luz de velas, alguma fantasia nossa. Quando todo mundo desconfiasse, quando não desse mesmo pra esconder, bom, divórcio é mais fácil a cada dia, não é? Mais algumas juras de amor e então, qualquer lugar seria perfeito ao seu lado. Um apartamento pequeno, uma casa no meio do nada, ou morar numa praia, não sei bem. 

Não precisa dizer nada, foi só a minha imaginação. Tenho certeza que o amor da sua vida é ELA e não EU. É do perfume do cabelo dela que você gosta mais, e não do meu, o jeito dela, por mais que ela seja burra, mimada, infantil, te faz suspirar, te faz viver um pouco mais. Nunca seu coração vai bater por mim como bate por ela, disso eu sei. 

Quando ela terminou com você, meu telefone tocou imediatamente. Claro que ela estava chorando, claro que ela me disse tudo. E então eu não acreditei que te perdi para ela, porque não quis assumir de uma vez o quanto te amo. Espere, perder você? Jamais vou te perder! Você nunca me pertenceu. Talvez uma parte sim, tenha sido minha. Por um momento ou um pouco mais. 

Seu coração foi feito de ouro. Por isso você é tão doce, é gentil e é fácil te amar. O problema é esquecer você. Esse coração de ouro maciço tem asas, mas nunca vai voar pra longe dela. Ele é pesado e fica mais ainda toda vez que ela visita sua mente, então você a ama calado e do seu canto você a olha de longe, a quer de longe, e seu coração, que nem pulsa mais, bate mais uma vez toda vez que ouve o nome dela. 

Não, amor, você não vai tirá-la da cabeça. Tampouco eu vou tirar você de mim. Peço perdão por ter mentido, por ter ficado do lado dela. Sim é confuso. Aquilo entre nós foi um reflexo de alguma coisa lá no fundo se manifestando, e sabe, poderia até ter dado certo. Porém eu fui tola e quebrei a mágica feito um pedaço de cristal espatifado no chão.

E se tivesse sido diferente? Quanto tempo eu aguentaria? E você? Os dois se enganando, dois amigos brincando de namorar. Que ingênuo! Se bem que eu era mais feliz quando outrora fui ingênua.

 

Desculpa por isso, me perdoa.

Só sei ser feliz se for com você, ainda que seja na minha memória.

Amo você, isso é verdade!

Fabi   

 

09.08.09

Posted in Deep Inside at 19:10 por Bohone

Mamãe enxerida  

_Tem jeito pra minha vida, Madame Tasha? 

_Isso depende. 

Lucas não perguntou “do quê?”, mas fez uma cara de indagação mais questionadora que mil perguntas. 

_Depende do que você quiser fazer com ela, certo? 

_Como assim, Natasha? 

_Pense. Se você estivesse em uma colina aonde o vento bate forte, constante, e tivesse na mão direita uma garrafa e na esquerda um punhado de areia. Você jogaria a areia no vento ou dentro da garrafa? 

_Não sei bem se entendi aonde você quer chegar. – Lucas estava pensativo, nem sempre era fácil compreender as analogias da amiga. – Porque você não me diz o que você faria então, talvez eu responda. 

_Hmm, certo. Eu abriria a mão esquerda e deixaria que a areia voasse com o vento. Quem sabe onde ela poderia parar? Deixaria o tempo decidir. Engarrafá-la jamais. Não gosto de nada que me prenda, se você entende. 

_Ah, sim, entendo. Mas não se pode jogar uma vida no vento, acho que isso é perder muita coisa, parte disso são as lembranças, os laços, alguma coisa que possa te prender a alguém. Sabe, não me faz tão mal isso, eu até gosto, é masoquista sim, mas… Gosto de pensar nela, por mais idiota que pareça. Eu também não quero enfiar a minha vidinha numa garrafa e esperar que vire outra coisa. Acho que eu vou sair vagando com o punhado de areia nas mãos pela campina. Conforme a caminhada os grãos vão se perdendo até que acabam, né. 

“Mas quer saber, Natasha? Eu quero mesmo é tentar ser feliz, dar certo. Conhecer outras garotas, não ligar pra nenhuma delas, cair nas baladas, me chamaram pra uma hoje, sabia? Eu vou não tô nem aí. Quero dar um pouco de trabalho pros meus pais como qualquer pessoa normal da minha idade, fazer umas bobagens. Respirar melhor, sei lá.” 

Da cozinha de Natasha vinha um cheiro de açafrão e cebolas. Também havia alguma coisa doce, canela talvez. 

_Fazendo o jantar? – Lucas perguntou. – Culinária indiana pra hoje? 

_É, mais ou menos. Arroz com curry e torta de maçã. Tem frango xadrez que eu fiz ontem, tem bastante.

_Hmm, comida Indo-germano-chinesa. Tá esperando alguém, Tasha? 

_Bom, eu estou sim. Ele vai chegar daqui a pouco. 

Lucas sentiu-se envergonhado. Deveria ter telefonado, ainda bem que não tinha atrapalhado o encontro romântico da amiga. Romântico? Natasha não namorava, pelo menos Lucas não sabia de nada. 

_Ah, tá namorando! Que lindinha, a Natasha arranjou um hippie pra curtir com ela, que fofa! 

Foi a vez de Natasha ficar vermelha. Riu e cobriu o rosto com uma almofada e depois a atirou no amigo. 

_Tasha, desculpa, eu não sabia que você ia receber seu NAMORADO hoje. Na verdade eu nem sabia que você estava namorando. Se eu soubesse teria ligado, aliás, eu deveria ter ligado. 

_Fica tranquilo, você sabe que pode vir quando quiser, você só teve sorte de me encontrar ainda de pijama, e não com a lingerie que eu comprei e… 

_Ok, Natasha eu entendi o suficiente.

Os dois riram muito com a imagem que se formava agora. Era difícil imaginar Natasha toda gata, produzida pra um namorado. Namorado? Era difícil imaginá-lo também. 

_E como é que ele é? 

_Bom, como você acha que seria? Perfeito! – Natasha fingiu um suspiro nada convincente. – É brincadeira, ele não é perfeito, mas quase. Ele tem rosto de índio e cabelo comprido, forte, alto… Todas aquelas coisas que as garotas gostam num cara, você sabe. 

_Não, não sei bem, na verdade eu gostaria de saber. Mas isso é assunto para outro dia, não quero atrasar você, sexy cat! Vou pra casa, o Nick já está com sono e eu também. 

Despediram-se. Já no portão Lucas começava a imaginar o que diria a mãe, deveria estar preocupada. O pai certamente o olharia nos olhos e perguntaria o que estava acontecendo. Mais hora, menos hora, teria de contar-lhes a verdade: a Carol terminou comigo por causa de outro cara e fim de papo. Não era bem isso, fim de papo. Lucas sabia que era um pouco mais, mas que podia ficar guardado para ele. Para os pais, uma frase ou duas era o suficiente, pensava. 

Girou a chave da porta da frente e Nick se adiantou em entrar antes do dono, como que para recebê-lo, como se não tivesse estado com ele; A voz que chamava vinha da sala. 

_Filho, venha cá, por favor. 

Era a voz calma do pai, que mesmo mansa era exigente. Lucas simplesmente soltou a coleira de Nick e foi até a sala. O relógio marcava nove horas e cinquenta minutos, até que não era tão tarde, fora uma vista rápida à casa da amiga. Lucas entrou na sala e olhou para os pais sem dizer palavra alguma. 

_Senta, filho. – dona Lídia pediu educada como sempre. Estivera chorando? Tinha os olhos vermelhos. 

_Por que estava chorando, mãe? 

_Ah, Lucas! – dona Lídia abriu o berreiro como uma criança pequena. Lucas pensava que a notícia que dariam poderia ser pior, bem pior, que uma bronca. A situação o apavorava cada vez mais. Será que havia acontecido um acidente ou coisa assim?  Imediatamente pensou nas irmãs. 

_Mãe, pelo amor de Deus, o que é que há? 

_Calma, Lídia, não seja tão afobada! Está deixando o garoto perturbado. – Marcelo também não entendia o motivo da choradeira da esposa. 

_Tudo bem então – Lídia tentava se recompor. – Filho, me desculpe por isso. É que fiquei atônita quando você saiu e foi correndo para a casa da Natasha. Não quis falar comigo, e eu percebi que você não estava bem. Então, como você fugiu daquele jeito, eu pensei as piores coisas! 

“Pensei que você não queria conversar comigo porque eu sou uma chata, que dá conselhos bobos, me senti a pior das mães. E foi pior ainda quando eu… Quando eu li essas coisas no seu diário, afinal, eu queria saber seus motivos. Vai que tinha alguma pista, sei lá! Mas não, só descobri que você me acha uma mãe ruim!” 

Lídia voltara a chorar. Lucas já não sabia se sentia dó da mãe ou se tinha raiva dela por ser tão enxerida. Por fim, achou que sentia dó mesmo e uma parcela de culpa. Fazia tempo que não falava direito com a mãe, não se dedicava à família tanto quanto poderia ou precisava. Sentia culpa porque sabia que quando o mundo caísse e todo o resto fosse pelos ares, quando ele se sentisse a pior das criaturas, era sua família que estaria lá, estendendo-lhe a mão. 

Dona Lídia era sim, um pouco intrometida. Mas era mãe, não ia mudar porque os pilares da família nunca mudam. Estava sem saber o que dizer, por isso, simplesmente abraçou a mãe chorosa, e contou-lhe a verdade. 

_Ah, mãe… Desculpe por aquelas coisas no diário. Eu não acho você boba, não, você é a melhor mãe que eu podia ter! Sempre preocupada comigo, tentando me agradar. Eu é que não tenho feito o mesmo, mas isso acabou, foi uma fase sabe? 

De repente soltaram-se. Lucas continuou com suas explicações. 

_O tempo que eu fiquei com a Carol, não vou negar: foi lindo! Mas chegou ao fim. Ela simplesmente terminou comigo, e eu não sei se eu fui um idiota em não ter feito o mesmo antes ou não ter percebido. Havia algum tempo que estávamos nos desentendendo. Você sabe, mãe, ela vivia no mundo da lua! 

“A Fabi, melhor amiga dela, passava mais tempo comigo e eu também não tenho previsão nenhuma de como serão as coisas com ela daqui pra frente. Acho que ela não sabia do amigo novo da Carol, não sabia mais do que eu nessa história, e a única coisa da qual eu tive noção desde sempre, era de que a Carol tinha algum tipo de distúrbio mental, sei lá.

 

“Hoje ela quis me ver, só pra acabar comigo. Fiquei no chão, mãe. Sem rumo, sem luz, ela era meu farol. 

“Hoje quando cheguei em casa, não queria ver a casa de ninguém, precisava por ordem em tudo. Quando acordei quis ver a Natasha, porque  ela me ajuda sempre nessas coisas, porque ela vê diferente. Não porque eu não confio em você e no papai, mãe. E é por isso que eu estou me explicando, para esclarecer que sem vocês, a Marina e a Regiane, eu não sou ninguém, não tenho nada! 

“Foi tudo um erro, mamãe, a Carol e aquelas coisas no diário. Momentos, sabe? Mas passou, mãe, passou que nem as aves migram no inverno, que nem o mar quando se cura de uma ressaca. Só peço que por favor, não fuce mais as minhas coisas, dona Lídia, isso é tão feio!” 

E, brincando, Lucas pôs o dedo indicador quase no nariz da mãe, balançando-o, com uma cara de bravo nada convincente. Então ela se deixou cair num abraço e jurou de pés juntos que não leria mais nada que fosse do filho. 

Era um alívio desabafar com os pais, Lucas não poderia se sentir melhor, mais confortável. Quando a conversa finalmente acabou, Lucas subiu as escadas para seu quarto e sentando-se na cama, abriu uma gaveta e sacou um caderno novo que havia comprado outro dia. Era um caderno de capa verde limão, chamava atenção demais para ser um diário secreto. Mas quem disse que Lucas gostava de ser normal? 

Desde que o vira numa vitrine, o caderno chamara demais sua atenção. Comprou-o meio sem saber o que fazer com ele. Enfim, encontrara uma utilidade.

Um diário não era um simples caderno; era um confidente, um amigo fiel, era uma relação de troca, onde alguém dava as letras e as linhas lhe cediam espaço. Letras? Linhas? Não. Mais que isso, um diário guardava fatos e sentimentos sob um único ponto de vista. Era aonde se podia ser egoísta, era o que lhe permitia alguns devaneios que não queriam ficar presos na cabeça. E a hora era perfeita para devanear. 

A primeira página continha apenas uma anotação de cabeça para baixo nas últimas (ou seriam as primeiras?) linhas:

 

Por que ser sensato e lúcido, se a felicidade (diferença?) está em ser diferente (feliz?)? Padrões não se adéquam. Para que então, adequar-se a eles? :) Pouca coisa escrita, muita coisa no que pensar…

08.24.09

Posted in Deep Inside at 18:35 por Bohone

O coringa e a tríade

“Eis que… o seu prêmio vem com ele, e diante dele está o seu trabalho. Quem mediu as águas na concha da mão, e tomou a palmos a medida dos céus.” Isaias, 40:10,12 (lema da décima carta do tarô cigano, a roda da fortuna: o que vai, volta) 

Lucas voltou para o quarto e na cabeça agora só tinha exaustão. Para que insistir? Dormir seria melhor, e talvez quando acordasse, sua cabeça pudesse estar mais conformada. Alguns problemas, só se podia enfrentar bem dormindo um pouco, umas duas horas era suficiente. 

Ligou o computador e foi procurando pela melhor playlist. Música sempre o acalmava ou traduzia algumas (muitas) das coisas que seu coração e sua cabeça passavam. A primeira da lista era perfeita: falava de ceticismo, coisas como não acreditar em contos de fadas e sair da bolha onde todos viviam, querendo algo novo. Alguma coisa de místico, histérico, escuro… 

Now or Never, Cinema Bizarre

Então se deitou e fechou os olhos. Teve vontade de sumir de vista por um bom tempo, fechar as portas, todas elas, que pudessem dar acesso à sua mente. Assim o fez, logo estava em sono profundo. Era como mergulhar num oceano sutil, mas sem luz, aonde diferentemente do comum, a água era doce invés de salgada. Uma coisa que somente ele conhecia: o mundo atrás das portas em sua mente. 

Não teve sonhos ruins, nem nada que lembrasse alguma coisa qualquer que fosse. Nenhum sentimento, nenhuma palavra, nada além de silêncio e cores pulsando em sua cabeça. Eram imagens de alguma forma relaxantes porque não lhe traziam nada normal. Era surreal. 

Enterrar-se na própria vida, era disso que Lucas precisava. Não podia mais abafar suas próprias estrelas, seu próprio ar para que outros brilhassem mais e respirassem melhor. Afinal, se cada um no mundo tinha direito de ser quem queria ser, ele não faria diferente: era um coringa, despreocupado, cético, até cínico. Mas livre e independente. 

_Lu? – alguma voz o chamava – Lu acorda, senão você passa outra noite em claro.

Quando Lucas acordou ainda se sentia zonzo. Eram nove da noite, dormira quanto mais que o esperado? Umas três horas, mais ou menos? Quem sabe mais. Droga! Mas ainda não era muito tarde para sair de casa e ver a amiga Natasha, apesar do friozinho que fazia lá fora. Era suportável, nada que um casaco e um cachecol de lã com seu perfume masculino levemente adocicado não resolvesse. 

_Mãe, preciso ver a Natasha. Vou sair. – aquilo não era nem de longe um pedido. 

_Espera filho, como assim PRECISA? – disse dona Lídia querendo impedir o filho de sair àquela hora da noite. Tinha aula no dia seguinte. – Nem nos vimos direito hoje, o que aconteceu com você? Por que está desse jeito agitado? 

Lucas andava de um lado para o outro no quarto procurando uma roupa que fosse mais quente que a camiseta de algodão. De repente parou pensando no que a mãe havia dito ao acordá-lo alguns minutos antes. 

_Mãe… Como você sabe que eu passei a noite em claro? 

Ora, ela era uma espiã agora? Como sabia? 

_Ah, filho. – dona Lídia ficou vermelha. Sabia que o filho não gostava que lhe invadissem a privacidade. – Eu sempre entro aqui durante a noite quando eu levanto de madrugada. Ontem eu vi que você estava muito inquieto enquanto tentava dormir, virando de um lado para o outro. Aí resolvi te acordar para você não passar mais uma noite se debatendo por falta de sono mais tarde. Cheguei às sete e você já estava dormindo. 

Lídia estava constrangida. Mas mãe é sempre mãe e ainda bem que só existe uma para cada pessoa no mundo. 

_Valeu, hein, dona Lídia por me espionar. Por que não trabalha pra polícia secreta? – talvez não fosse motivo, mas Lucas estava alterado. Sentia-se à flor da pele, qualquer fagulha o faria estourar. Respirou fundo.

Tinha na mão direita o desenho da tríade de cartas e na esquerda a coleira de Nick, muito distraidamente. Chamou pelo cachorro. 

_Nick? Nick vem aqui garoto! Mãe, eu não demoro mais que duas horas, ta bem? 

Nick veio correndo e arrastando as orelhas peludas no chão. Suas patinhas faziam um barulhinho engraçado, bem característico dele. Era ouvi-las e saber que o Cocker estava chegando. 

_Ei, Nick, você precisa de um banho. Mas não hoje, sábado quem sabe. Agora vamos ver a Natasha. 

Nick latia para os transeuntes na rua quando Lucas saiu de casa sob o protesto de dona Lídia. Conversaria com ela mais tarde quando chegasse em casa. Havia questões maiores para decifrar. Pelo menos havia alguém feliz: o cão exibido ladrava alto, e era até bom que afastasse passantes mal intencionados. 

O caminho conhecido até a casa da amiga não era longo. As luzes estavam acesas, era um bom sinal, Natasha estava em casa. Lucas só desejava que estivesse sozinha. 

Não foi preciso chamar: a garota os viu pela janela da casa enquanto abria a cortina. Sorriu e fez um gesto com a mão pedindo que esperassem um pouco. Será que era uma má hora? Lucas realmente achava que não, sabia que a amiga gostava de surpresas. Enfim, metida em uma calça de malha preta, sapatilhas verdes e uma blusa de algodão de mangas compridas da mesma cor, Natasha apareceu. Foi logo abrindo a porta, com as chaves em uma mão e na outra um biscoito de linhaça. 

_Sempre surpreendendo, né? – abraçou-os com o sorriso de sempre e o mesmo olhar de boas vindas. – O que eu posso fazer por vocês hoje? Entrem. 

_Tasha, desculpa! Não queríamos incomodar você, – Lucas foi se desculpando. Nick já estava subindo as escadas. – mas é um caso sério. 

_Nossa, fazia tempo que ninguém me chamava de Tasha! Vamos sair do portão e você me conta. Aproveita e conta a história desse desenho aí. 

_É, foi por isso que eu vim. Tenho muito que contar, mas não tenho muito tempo. Já imagino o que a dona Lídia vai dizer quando eu chegar. 

_Hum, entendo. – Natasha já se sentava com uma almofada no colo. A sala tinha cheiro de incenso, alguma coisa amadeirada. Patchouli, sândalo? Algo assim. Era tudo muito marrom, verde e laranja, lembrava outono. – E então, me conte tudo. 

_Bom, ontem eu dormi muito mal, mas muito mal mesmo! Sonhei com essas cartas – Lucas mostrou o desenho da tríade de cartas a Natasha. – e quando acordei no meio da noite, consegui fazer o desenho quase perfeito. Não entendo nada de tarô, mas sei que você entende alguma coisa. 

Natasha analisou o desenho. A carta dos amantes, a lua e a roda da fortuna. Parecia fazer algum sentido para ela pelo jeito que avaliava a figura, torcendo o nariz com a mão apoiando o queixo. 

_No sonho eu consegui ver as cartas sobre a mesa, nitidamente. Uma seguida da outra. E eu somei os números de cada carta, dá sete. Isso tem alguma coisa a ver? 

_Na verdade tem sim. Tem tudo a ver! – Natasha parecia empolgada. Fez um gesto para o amigo sentar-se mais perto – Veja, começando pela disposição das cartas, uma tríade formada por cartas seguidas uma da outra, em forma de passado, presente e futuro. Agora aonde eu guardei meu baralho? 

A garota começou a procurá-lo com os olhos pela saleta. Encontrou-o ao lado da TV, próximo a um vaso de flores. Levantou-se e abrindo a caixa procurou pelas cartas certas. Acomodou-se novamente na almofada fofa apontando para cada carta enquanto explicava. 

_Aqui, a carta do passado, os amantes. Aqui tem um casal nu, a mulher representando o anima, o lado feminino de todas as coisas, e o Eros ligado à emoção e ao coração. O homem representa o animus ou o lado masculino, e o Logos o intelecto e o cérebro. A montanha alta atrás deles é o caminho de ascensões que os dois podem seguir juntos e o sol do meio-dia é a luz divina sobre os dois. Sabe, não é uma carta que simbolize um amor mundano, na verdade são almas gêmeas, aliás, esse é o segundo nome dessa carta “os irmãos” ou “gêmeos”. Um completando o outro. 

“A carta da lua, a carta que simboliza seu presente. Ela representa seu emocional, sabe quando você está com a cabeça na lua? Na carta ela aparece nas suas três fases: crescente, cheia e minguante. O lagostim saindo da água simboliza a saída do físico para o emocional, o lobo e o cão uivando são os instintos revoltosos. Dá pra ver, você não está numa fase muito boa. Pense como se a lua fosse a inconsciência e o sol seu antônimo. A lua só reflete a luz do sol, como a inconsciência é um reflexo da consciência ou uma Xerox mal feita. Mas o caminho inconsciente é muito maior! Afinal, a imaginação não tem limites. Acho que essa carta quer dizer que você deve arrumar a bagunça aí dentro da sua cabeça e tomar um novo rumo, um que não leve às desilusões. 

“E por fim, a roda da fortuna, uma das minhas preferidas! Veja, é uma roda suspensa no ar com quatro elementos psicológico representados por estes desenhos em volta da roda: a sensação, a emoção, o pensamento e a intuição. Imagine que você está amarrado a essa roda, quando ela gira, você sobe e desce, sobe e desce. Aí estão a mutação da alma, os acontecimentos afortunados. Virar o jogo, virar a mesa, dar a volta por cima. É o que representa essa carta, é a roda do Karma. O intercâmbio de energia entre os opostos, o que vai, volta. 

“Se você quer que eu resuma, seu sonho profético diz que sua namorada foi feita para você, vocês não são almas comuns, vocês tem um caminho juntos. Agora, sua cabeça está sem rumo, e aposto o que você quiser, que a dela também. Ambos estão desiludidos, descontentes um com o outro, alienados. Mas isso não vai durar muito, a roda do tempo está girando e girando, e mais hora menos hora, essa situação vai mudar. O único problema é que eu não sei dizer para que lado ela vai.” 

Lucas pensou por um tempo no que Natasha havia acabado de dizer. O sonho havia sido realmente profético. Mas… Lucas não se lembrava de ter comentado a namorada! 

_Tasha… Como você sabe que eu tive problemas com a Carol? Quer dizer, podia ter sido qualquer outra pessoa, outra coisa, sei lá.

_Lu, as cartas nunca mentem! – Natasha debochou – Não, brincadeira. Ah, eu simplesmente achei que fosse. Não acho que teria algum outro motivo para você chegar aqui a essa hora, apesar de que não é tão tarde, mas não é típico de uma segunda-feira a noite. Quando terminou com ela? 

_Algumas coisas não se pode esconder, né? Terminamos hoje à tarde. Pelo que eu entendi, ela terminou comigo porque outro cara apareceu quando ela estava meio carente e blá, blá, blá… E ela ainda teve coragem de me beijar. Filha de uma… 

Lucas refreou o palavrão. Tinha mais com o que se preocupar. 

_E o número sete? 

_O sete é o número da perfeição: sete cores do arco-íris, sete notas musicais, sete dias que Deus usou para fazer o mundo e com isso, os sete dias da semana. Enfim. O sete é o número da busca interior, pessoas que têm a data de nascimento número sete são filósofas. Mas acho que no seu caso é outro aviso, pedindo para você olhar dentro de si e refletir, se preocupar mais com você, e ser até meio egoísta, vai saber. Vai te ajudar a crescer, sabe. 

_Acho que eu entendi sim. 

Lucas havia entendido, mas ainda estava confuso, talvez fosse informação demais para um dia. Com o tempo as coisas se encaixariam. Ou não. 

_Obrigada taróloga! Você me ajuda muito, Madame Tasha. 

_Ok, ok, mas… Madame Tasha? 

_É, toda cartomante tem um nome sucede o termo Madame. Madame Minn, Madame Cassandra, Madame Tasha, e por aí vai. 

Natasha riu. Lucas sempre a faria rir. Era um garoto jovem, mas de uma complexidade que ela achava fascinante. Difícil era não gostar de Lucas ou, pelo menos, não ficar curiosa com seu jeito detalhista, romântico, doce e engraçado principalmente. Ela sabia que eram poucas as pessoas que o conheciam de verdade, pelo menos um pedacinho, de seus segredos que alguém normal não imaginaria facilmente. Era preciso ser um pouco mais que isso, e talvez, a alma artística de Natasha a ajudasse a compreender e gostar (muito – mas muito mesmo) daquele amigo tão querido.

08.18.09

Posted in Deep Inside at 20:08 por Bohone

Quarta-feira de cinzas

Vestido Estampado – Ana Carolina

Três da tarde. Já que não tinha horário nem o que esperar em casa, para que a pressa? Lucas foi andando lentamente com as mãos nos bolsos, chutando pedras. Nada poderia parecer mais bucólico. De qualquer modo, era melhor do que ouvir a irmã menor cantar na frente da televisão, aguentar a mais velha no telefone, escutar a mãe assoviar e o ver pai mudar os canais em frente à televisão sem parar em nenhum por mais de cinco minutos. Melhor passar a noite fora, mas ir para onde quando não tinha vontade de conversar com nenhum amigo e nem incomodar ninguém? Queria simplesmente ficar só, então continuou no caminho para casa. Seu quarto deveria estar como sempre tranquilo e inabalável. 

Então Carol o enganara. E ele havia caído feito um patinho, pensando em pedir perdão, pensando em qualquer forma de aliviar seu fardo e assim tê-la de novo. Mas Carolina não era mais sua, talvez nunca tenha sido. 

Alguém legal, que tivesse bom coração e fosse provavelmente religioso (um monge) diria: “Se ela quis assim, pois bem, que seja feliz assim como ela mesma escolheu. Não tenho nem terei raiva, nem vou guardar ódio dela”. Mas não, Lucas queria que ela se decepcionasse, caísse em pedaços, que se danasse! Nunca mais queria vê-la, não podia suportar a ideia de tê-la beijado daquele jeito. Queria poder negar tudo e se esquecer. Mas não podia, pelo menos não por enquanto. Sentia raiva e sentia ódio, era como se ele mesmo tentasse tomar veneno querendo que ela morresse. 

Era o fim e havia uma frase ridícula, embora fosse verdadeira, que pregava não chorar por causa do fim, mas sorrir porque acontecera. Sorrir ele não podia. Ainda não. Quem sorria numa quarta-feira de cinzas ao ver a beleza do carnaval se acabar, cair por terra? Carol era uma alegoria, uma ala, cheia de brilho, vibrante e musical. O brilho deixara de ofuscar, acabara; a música também tivera seu fim. 

No fundo ele sabia que daria a volta por cima, afinal, o carnaval acontecia todos os anos, e no ano seguinte ele não se importaria em brincar ouvindo as marchinhas na rua procurando um novo amor, ainda que fosse passageiro. Podia ser qualquer uma das garotas mascaradas. Vestir-se-ia como um coringa que não faz parte de nenhum naipe de cartas em um baralho de bar; provavelmente se alguém encontrasse uma carta virada, jogada no chão de um lugar qualquer, seria um coringa. Sem naipe, sem fazer parte do jogo, mas com suas especialidades incomuns. Era singular assim como Lucas. Usaria ironias quando quisesse dizer a verdade e seu coração não pertenceria a nenhuma garota, não se deixaria levar por nenhuma ideologia, deixaria de acreditar em profetas. Era hora do ponto final, mas não do “The End” nem do “Post Script” nem do epitáfio. Era chegada a hora de iniciar um novo capítulo, numa página em branco, daquelas que parecem dar as boas vindas a uma caneta qualquer. Não sabia se sua história dali em diante seria escrita com uma pluma de ouro ou seria a lápis. Não importava, do mesmo modo que não eram importantes as antigas convenções. Tudo estava morto e era feito de cinzas. 

Quando Lucas chegou em casa não havia ninguém além do cachorro Nick. A melhor companhia, com certeza: Nick não falava, não palpitava, não reclamava nem dava conselhos. Simplesmente costumava deitar-se ao lado do dono, consolando-o calado. Havia um bilhete na porta da geladeira. 

Lu,

Fui levar a Re na natação, depois vou pro inglês.

Mamãe vai demorar e papai chega às sete.

 

Beijo, Ma. 

Ótimo, isso significava mais do que ter tempo para pensar. Era ter sossego de tudo aquilo ao que estava acostumado. De repente a rotina lhe pareceu extremamente tediosa: casa, escola, casa, escola… A namorada não tinha mais e nem queria outra por um bom tempo. A cólera parecia uma fadinha que ficava dentro do estômago, se agitando, querendo sair. E ela tilintava sem parar. Tinha gosto de absinto. Absinto não era a bebida dos boêmios? Ora, por que não tornar-se um? Não havia o que perder. 

 

Entrou no quarto e sentou-se na cama e puxou uma velha caixa de papel em forma de triângulo onde estavam lembranças de tempos melhores. Entre todas as lembranças, as mais especiais eram dela. Daquela menina linda. 

Fotos na praia, corações de papel, pingentinhos e papeis de bala, a maioria o fazia lembrar-se dela. Lucas não quis rasgar as fotos, não quis queimar os papeis. Não. Invés disso quis chorar porque estava triste, porque era difícil deixar passar. Mas ela seria a única e a última. Nenhuma outra era nem seria como ela e fim da história. 

A primeira lágrima caiu quando seus olhos passaram pelas primeiras frases de uma das cartas de Carolina. Essa havia vindo da Argentina aonde ela havia passado um mês visitando uma avó. A distância parecia insuportável. 

 

Mendoza, 15 de Janeiro

Meu amor, 

Hoje a cidade acordou triste, meio pálida. Não sou diferente dela: não tenho mais aquele rubor que você, e só você, sabe fazer aparecer como se fosse magia. Mas não é só a minha pele que não se parece a mesma. É também meu coração que não vibra uma batida longe de você e meu corpo implorando pelo seu. Do que adianta o mundo estar aos meus pés se não for com você ao meu lado? Não, nada disso tem valor. 

As pessoas, principalmente as da minha família, costumam dizer que eu tenho um futuro promissor. Boas escolas, boa família, bons livros, além dos bons amigos que se encaixam no padrão normal… Parece que mi abuelita acha que eu não poderia ser mais feliz.  Não posso dizer a ela, porque há coisas que as mulheres mais idosas não entendem, mas meu coração sabe que meu lugar é ao seu lado. 

A lua fica sem graça perto do brilho nos seus olhos. Seus olhos… Como me fazem falta! Sinto falta de ser feliz e de sorrir contigo. Todo o sal do mar não tira o sabor dos seus beijos da minha memória. Minha boca precisa do doce da sua para não se amargar, e nem as frutas de sabor mais tênue e suave podem substituir sua língua. Como queria um beijo seu agora… 

São mais quinze dias para esperar aqui. Vou tentar me distrair, sabe que eu sou boa nisso, mas as distrações são como aqueles frascos de spray que se usa em pequenos cortes: amortece, mas não cura. 

Te amo muito, não sei mais viver sem você comigo! 

Carol  ♥

 

Era hora de dar adeus àquelas lembranças. Lucas pegou a caixa de papel, com tudo o que trazia Carol à tona. Queria enterrá-la como se enterra alguém que morreu por quem se teve carinho um dia. Achou melhor abandoná-la, até o dia em que a quisesse de volta, no sótão. Dona Lídia não admitiria escavações no quintal. Então Lucas subiu as escadas do sobrado e entrou no quartinho cheio de poeira, coisas quebradas e esquecidas. Ajeitou a caixa aonde coubesse e deu as costas fechando a porta. Era hora de uma nova estação naquele fim de inverno.

08.14.09

Posted in Deep Inside at 1:17 por Bohone

A derradeira  

Agora não havia com o que se preocupar, Lucas correu até ela. Atravessou a rua correndo e foi sorte não vir nenhum carro, e se viesse, com certeza o motorista o teria xingado. O resto do mundo não tinha importância quando ela estava lá. Ai, aqueles cabelos vermelhos! Ela estava sentada num banco sob uma árvore, mas Lucas não acharia estranho se Carol estivesse sentada em um dos galhos maiores, nunca se sabia o que viria dela. Tinha um olhar distante e apoiava os cotovelos nos joelhos. 

Ela era linda, como podia ser tão bonita? Lucas passou alguns segundos observando-a de longe, pensando no motivo da vida ter-lhe dado um anjo de cabelo vermelho, tão atípico. Por um momento podia parecer uma diaba, por causa do calor que dela irradiava, mas sua doçura mostrava o contrário. Logo ele correu para a garota sentada que usava jeans e uma blusa xadrez. 

_Carol. – chamou-a quando estava já bem perto. 

Carol levantou-se e seu semblante tinha um misto de culpa e saudades. Lucas não entendeu, só abriu os braços para que ela se jogasse neles, e ela assim o fez. Não tinha nada que pagasse aquele momento, parecia que havia anos que não se viam. Abraçá-la, sentir seu perfume, trazia uma sensação de deja vu. O coração de Lucas acelerou, o rosto de Carolina estava mais corado, a respiração dos dois mais pesada e o os olhos não se desgrudavam. Logo as bocas estavam juntas e o beijo foi tão intenso quanto o abraço, talvez até mais. Alguma coisa nela era inebriante, mais do que em qualquer outra garota. Que se danasse o que ela diria depois, era melhor aproveitar uma chance do que perdê-la para sempre. 

Dois, três, dez minutos e o beijo não perdia o calor. Sentiam-se cada vez mais como um só, como tinha que ser. Lucas agora sabia, era ELA! Ela o fazia bem, ela o fazia feliz, ela o completava e o tornava único. Decidira contar toda a verdade, não poderia carregar aquilo no peito por mais nenhum segundo. Carol não merecia, ela precisava saber. 

Finalmente os braços cederam, e houve então mais um olhar. O dele apaixonado, o dela talvez um pouco culposo. Havia uma sombra naquele olhar, e seus olhos estavam vermelhos como se tivesse chorado por horas. 

Sentaram-se então, no mesmo lugar onde antes Carol estava sozinha. 

_Sabe que eu cheguei aqui uma hora mais cedo. – disse ela – Não consegui comer nada, precisava ver você primeiro. Fiquei sentada aqui, esperando você chegar. Acho que teria vindo de manhã se não precisasse ir à escola. 

_Aconteceu alguma coisa, amor? – Lucas estava preocupado, puxou o rosto da namorada mais pra perto. – Andou chorando?

Por que não fora antes encontrá-la? Deveria imaginar que a ansiedade da namorada não a deixaria esperar nenhum minuto após a aula. 

_Na verdade eu andei sim. E acho que você precisa saber por quê. 

Lucas não compreendia. Achava que só ele tinha pontos a esclarecer, mas de repente percebeu que não. Lembrou-se da conversa rápida no telefone na noite anterior. 

_Então me diga. Por que não está feliz? 

_Na verdade quem não está feliz comigo é você, Lucas! Eu vejo como são as coisas, não sou cega… 

_Carol, não tô te entendendo, do que você tá falando? 

_Por favor, não seja hipócrita! Eu vejo o jeito que você trata suas amigas toda vez que as encontra, eu vejo o jeito que você fica de saco cheio quando liga pra mim, quando vai pra minha casa. 

_Ah, é isso então. – Lucas começava a entender. Era mais uma briga, pelo mesmo motivo que ele conhecia muito bem: Ciúme. Entre outras coisas  que ele não conhecia o nome. – Você vai começar a implicar de novo. 

_Não, eu… 

_Carol, presta atenção, tá legal? Eu fico de saco cheio de ir pra sua casa, porque você nunca vai ver minha família. Eu fico cansado de tanto ligar pra você, porque você não me telefona nunca. Passei o fim de semana inteiro sem te ver, sem um telefonema seu. Sabe quem ligou pra mim? A Fabi, sim, a Fabi, sua melhor amiga. Sabe quem me convidou pra uma visita? A Natasha, e ela é minha vizinha. Sabe quem me chamou pra uma festa? O Ricardo do terceiro B, e eu nem conheço direito o cara. Mas minha namorada não, aliás, não sabia nem como você estava antes de te ver hoje. 

_Entendi. – Carol admitiu com pesar. – Acho que nenhum de nós dois está muito feliz com o outro né? E é nessas horas que pode aparecer outro alguém. 

Carol tinha um segredo. Essa era a chave que se encaixava naquele mistério que ela escondia. Por que não dizia logo e acabava com a angústia que ela sentia e a confusão na cabeça dele? 

_Bom, não posso mais esconder isso de você. 

_Esconder o que, Carol? Diz de uma vez! 

Carol suspirou. Como ia contar? Sem chorar não conseguiria: seus olhos já estavam cheios d’água. 

_Sabe, faz umas duas semanas eu conheci uma pessoa. Primeiro era só um colega, depois um amigo que ouvia tudo o que eu dizia, me ajudava com meus problemas. E agora… Agora ele resolveu dizer que me amava e que não me esquecia por um minuto que fosse. 

Ele sentiu raiva. Foi aí que a primeira lágrima caiu. Carol já estava soluçando. 

_E também… Também não consigo não pensar nele, por mais que eu tenha amado você, por mais que eu… Eu queira… Eu tentei. Juro que eu tentei! E eu… Ai, meu Deus, eu beijei ele. Faz algumas semanas. Não consegui contar antes, por favor, me perdoa! 

Lucas freou o gesto de mãos de Carol, ela queria tocar seu rosto. Como ela podia? Ser tão fria, calculista. Fingir que estava tudo bem e ainda beijá-lo daquela forma, fazendo-o quase perder a cabeça por ela havia somente alguns minutos. De repente Lucas não sentiu mais remorso por ter beijado outra garota e agora aceitava o que Fabiana tinha dito antes: não era nada! Não era nada porque não havia mais com o que se importar. Era melhor tratar tudo assim, como se fosse uma banalidade. 

_Então é só isso, certo? Acabou. – Lucas não tinha chão, mas estava decidido. 

_Não precisa ser assim! Escuta, ainda quero ser sua amiga e… 

_E quando precisar de mim, me liga? Ora por favor, quem está sendo hipócrita agora? Até um dia, Carol. 

Carol ainda protestava, queria esclarecer as coisas. Lucas achava que ela tinha sido muito clara, não precisava e nem queria ouvir mais nada. Deu meia volta e seguiu em rumo a sua casa. 

Eram mais ou menos cinco quilômetros de onde estava até sua rua. Não era muito, melhor ir andando. Ajudava a clarear a mente; então ele foi. Seguiu seu caminho até chegar em casa, tendo consciência de que alguma coisa morria ali, era o fim de uma fase. Isso era óbvio. Lucas só não sabia se podia suportar, se esconderia o jogo e fingiria que nada estava acontecendo. Não sabia se chorava, se gritava ou se sorria. Se dava risada daquilo que o destino havia pôsto no caminho. No fim, não disse a ela o que acontecera com Fabi. Eram amigas, mais hora menos hora, a amizade terminaria ou ela acabaria contando, qualquer coisa. A quem isso importava? A ele com certeza não.

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